Uma Brevíssima Teologia Bíblica das Calamidades

Estamos vivendo um tempo de calamidade. A nossa calamidade atual é a pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2 que causa a doença COVID-19. No Brasil, estamos caminhando para 2 meses de quarentena. Os números da doença ao redor do mundo e no Brasil, as notícias, previsões e consequências econômicas e políticas atuais e futuras são assustadoras. É evidente que Deus não nos deixaria perdidos em um momento como este. Deus fala por meio de sua palavra e encontramos muito nas Escrituras pararmos guiar em um momento como este. Assim, nesse breve artigo proponho uma brevíssima (e escrita às pressas) Teologia Bíblica das calamidades. Os pontos que veremos serão os seguintes:

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1 O pecado é a causa de todas as calamidades

2 As calamidades são punição de Deus

3 A calamidade que vem pela frente é muito pior

4 Deus vai extinguir toda calamidade de sobre a terra

5 A atitude do cristão em meio às calamidades

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1 O Pecado é a Causa de Todas as Calamidades

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Na versão original do mundo não existiam calamidades (Gênesis 1 e 2). Deus criou um mundo perfeito, no qual tudo era muito bom e funcionava perfeitamente. Com a entrada do pecado no mundo, entretanto, Deus amaldiçoou a terra e o resultado foi que a terra não seria mais um lugar totalmente aprazível para o ser humano (Gn 3.17-20). A morte entrou no mundo e será o último inimigo a ser derrotado por Deus (1 Coríntios 15.26; Apocalipse 20.14). A criação foi submetida à vaidade e corrupção (Rm 8.20-22). O resultado disso é que passaram a existir secas, fomes, terremotos (e outros desastres naturais), pestes (pragas, epidemias) e guerras. A esses e outros eventos semelhantes chamamos de calamidades.

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Toda calamidade que existe é uma consequência da entrada do pecado no mundo. A maioria das calamidades registradas na Bíblia mostram claramente a relação entre pecados específicos e a calamidade sofrida por um povo (como veremos a seguir). Deus, no entanto, por meio das calamidades, também faz com que seus planos eternos de redenção se cumpram. Esse é o caso da fome que sobreveio a todo o mundo na época em que José estava no Egito (Gênesis 41; Atos 7.9-15). O texto bíblico não apresenta uma relação direta entre os pecados do Egito e a fome que sobreveio ao mundo, mas deixa claro que Deus estava fazendo cumprir as promessas que havia feito a Abraão, Isaque e Jacó de preservação de seu povo. Não parece haver uma ligação direta entre o pecado de um povo e a fome que sobreveio ao mundo na época do imperador Claudio, mas falaremos sobre essa posteriormente.

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2 As calamidades são punição de Deus

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O aspecto mais evidente na Bíblia a respeito das calamidades é que elas são usadas por Deus para punir pecados. A primeira grande calamidade registrada nas Escrituras é o Dilúvio. Deus encheu toda a terra de água e matou toda a humanidade por causa da proliferação do pecado no mundo (Gênesis 6—9). Alguns capítulos depois em Gênesis 12.7, vemos Deus punindo a nação do Egito com pragas por Faraó ter tomado para si Sara, esposa de Abraão. Em Gênesis 18 e 19, encontramos o relato da destruição de Sodoma e Gomorra por fogo e enxofre por causa dos seus terríveis pecados na área sexual. Em Êxodo, vemos a mão de Deus produzir toda a sorte de tragédias e pragas entre os Egípcios por causa da opressão que impuseram ao povo de Deus e por não permitirem que os filhos de Israel saíssem para adorar a Deus (Êxodo 5—14).

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Guerra também é uma calamidade. Uma guerra que por vezes é usada contra os cristãos como um argumento contra a santidade de Deus é a guerra de conquista da terra prometida contra os povos de Canaã. Essa guerra, no entanto, deve ser colocada em sua correta perspectiva teológica. Já em Gênesis 15.16, Deus avisa a Moisés que ainda não daria a terra prometida para ele “porque não se encheu ainda a medida da iniquidade dos amorreus”. Ou seja, somente quando essa medida que desperta a ira de Deus estivesse completa é que o Senhor derramaria a sua ira. Assim, as guerras que encontramos em Josué, eram guerras empreendidas pelo único Deus Santo contra a falsa adoração (Deuteronômio 7.3-5; 12.2-3; Êxodo 34.12-13).[1]

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Na história bíblica, várias vezes Deus pune o seu próprio povo por causa de pecado. Quando entrou em aliança com seu povo, Deus deixou claro que seus escolhidos lhe deveriam obediência e que haveria consequências drásticas se o povo de Deus decidisse desobedecer ao Senhor e manter-se em desobediência. São as chamadas maldições da aliança (Levítico 26 e Deuteronômio 27—30). Dentre essas maldições da aliança encontramos algumas que podem ser consideradas calamidades, como pragas, secas, guerras e exílio (cf. Deuteronômio 28.59-61; 29.21; 32.24-25).

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Infelizmente, o povo de Deus, por meio de sua desobediência obstinada, experimentou todas as maldições da lista que Deus havia feito. Já na saída do Egito o povo de Deus foi consumido por fogo (Números 11), praga (Números 11, 16.41-50, 25; Salmo 106.29-31) e infestação de serpentes (Números 21). Os pecados da época dos juízes atraíram derrotas em guerra, opressão e fome (Juízes, Rute). A desobediência de Davi em fazer o censo de Israel contra a vontade de Deus resultou em uma praga devastadora (1 Samuel 24; 1 Crônicas 21). Os pecados da época de Acabe resultaram em uma seca de três anos e meio (1 Reis 17; Tiago 5.17-18). Como o povo de Israel não mudou mesmo depois de insistentes exortações por parte dos profetas do SENHOR, os seus insistentes pecados resultaram no exílio assírio (2 Reis 15.27-29; 1 Crônicas 5.25-26). A despeito de ter visto tudo o que aconteceu com a sua nação-irmã, Judá seguiu nos mesmos caminhos, e enfrentou terríveis experiências de guerra e exílio na Babilônia (2 Reis 24.1-4, 20; 2 Crônicas 16.15-21; Isaías 26.6-8; Jeremias 4.16-18; 14; 18.17; 19.8; 24.10; 27.8-13; 29.17-18; 32.24, 36; 34.17; 42.17, 22; 44.13; Ezequiel 5.12, 17; 6.12; 7.15; 28.23; Habacuque 1; 3.5). Todos esses textos entre parênteses deixam claro que a guerra, o exílio, os abusos e outras coisas terríveis que acompanharam esse momento terrível da história de Israel aconteceram por causa dos pecados do povo; eram as maldições de aliança sendo derramadas sobre o povo de Deus em seu nível mais alto como castigo e disciplina da parte de Deus. O SENHOR Deus já havia chamado o seu povo ao arrependimento por meio de terremoto (Amós 1.1), peste (Amós 4.10), gafanhotos (Joel 1).

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Em uma teologia bíblica da calamidade, esse aspecto é o mais pronunciado e repetido nas Escrituras. Deus usa as calamidades como uma forma de chamar pecadores ao arrependimento e de punir duramente pecadores que não aceitam arrepender-se (Êxodo 30.12; Levítico 26.21; Números 8.19; Josué 22.17; Prov 16.4; 24.16; Eclesiastes 9.11-12).

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Esse último aspecto é visível nas punições que Deus derramou contra os povos que se levantaram contra o povo escolhido por Deus. Quando os filisteus roubaram a arca de Israel que simbolizava a presença de Deus no meio do seu povo, Deus puniu os filisteus com tumores e uma infestação de ratos (1 Samuel 5—6). Quando o exército assírio, após ter destruído a nação de Israel, quis se levantar contra a nação de Judá, Deus enviou uma praga terrível contra o exército assírio que matou 180 mil guerreiros (2 Reis 18.13—19.37; 2 Crônicas 32.1-23; Isaías 36.1—37.38). O mesmo Deus que usa os povos para punir a desobediência do povo da aliança ao longo da história é o Deus que posteriormente pune estes povos por terem agido com maldade contra os eleitos de Deus (Isaías 13—14; 45; Jeremias 25; 32; 49—50; Ezequiel 25—26; Naum; Jonas; Obadias; Amós 1, Daniel 2; Zacarias 9; 14.12 entre muitos outros).

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Pandemias, pragas, terremotos, tsunamis, infestações e guerras são apresentados na Bíblia principalmente como manifestações da ira santa e justa de Deus contra o pecado humano. As calamidades são uma convocação de Deus ao arrependimento e devem ser ouvidas sempre como tal.

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3 A calamidade que vem pela frente é muito pior

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Nenhuma calamidade passada nem a atual crise da COVID-19 se comparam, no entanto, com as terríveis calamidades em série que Deus anuncia para o final dos tempos. Um tema que se repete na Bíblia toda é o dia do Senhor. Esse dia já se cumpriu algumas vezes na história, mas se cumprirá de maneira terrível e insuportável logo antes da volta do Senhor Jesus Cristo para assumir o reinado nos novos céus e nova terra. Normalmente as profecias que falam sobre esse dia final apontam tanto para os seus cumprimentos parciais ao longo da história quanto para o seu cumprimento final. Um dos aspectos terríveis do dia do Senhor final (ou grande tribulação final) é que ele ajuntará todas as calamidades anteriores de enviará de uma vez sobre a terra. Podemos alistar os seguintes textos: Joel; Mateus 24—25; Marcos 13; Lucas 21; Apocalipse 6—9. Tá ruim? Vai piorar. E muito. Ouçamos os dias do Senhor atuais como convites ao lamento, ao arrependimento e a uma nova vida com Deus.

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4 Deus vai extinguir toda calamidade de sobre a terra

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Em meio a tudo isso, no entanto, existe uma ótima notícia! Essa ótima notícia é que o Filho de Deus veio ao mundo para nos libertar de nossas doenças e sofrer o castigo que nos traz a paz (Isaías 53). Jesus foi rejeitado e sofreu mais do que qualquer outro ser humano para conquistar para nós liberdade. Essa e outras promessas de Deus, no entanto, tem um aspecto realizado e outro ainda por realizar. As promessas de Deus envolvem aquilo que os estudiosos chamam de já e ainda não. Vivemos os “últimos dias”, já somos salvos, já somos habitados pelo Espírito e habitamos nos lugares celestiais em Cristo, mas ainda temos em nós marcas de morte, o velho homem, a carne e por vezes somos derrotados pelo pecado e enfrentamos lutas e tristezas e, por fim, morte.

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Mas Cristo enfrentou todos sofrimentos físicos, emocionais e espirituais possíveis na cruz com o objetivo de, por fim, nos libertar completamente de toda calamidade e estabelecer o reino de Deus visível sobre a terra. Para sempre. A Bíblia apresenta algumas imagens daquilo que Jesus Cristo conquistou para nós: Isaías 2; 65.17—66.24; Miqueias 4; Apocalipse 21—22.

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Um dia, viveremos em uma terra restaurada, unida com o céu. O templo será o próprio Deus e todos aqueles que amaram Jesus Cristo durante a sua vida habitarão na terra restaurada, terão comunhão plena com Deus e uns com os outros, conhecerão a Deus mais profundamente a cada dia e serão totalmente e para sempre libertos de todo tipo de calamidade. Sonhe. Anseie. Almeje. E viva já como cidadão dessa realidade.

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5 A atitude do cristão em meio às calamidades

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Até aqui vimos que Deus criou um mundo sem calamidades. Depois da queda, ou seja, da escolha humana de rebelar-se contra Deus, as calamidades entraram no mundo como consequência do pecado humano. Essas calamidades atingem aqueles que se dizem povo de Deus e também aqueles que são declaradamente antagônicos a Deus e seu reino. Vimos ainda que a situação vai piorar bastante à medida que aquele que faz novas todas as coisas estiver para voltar. Jesus Cristo sofreu todo sofrimento possível, a fim de conquistar o direito de nos redimir e de redimir toda a criação. Assim, aqueles que tem fé em Jesus e o recebem como Salvador e Senhor podem viver, sofrer e se alegrar hoje à luz das promessas que Deus certamente vai cumprir. A criação, a queda, a redenção e a consumação apresentam uma resposta robusta para as calamidades. E baseados nessa teologia sólida podemos então basear nossas atitudes práticas. É isso que esse último ponto aborda. Veremos que em momentos de calamidade o cristão deve (a) cuidar de si mesmo e de sua família; (b) cuidar dos necessitados; (c) confiar em Deus; e (d) chorar, clamar, confessar a Deus, ou seja, lamentar.

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(a) Em tempos de calamidade devemos cuidar de nós mesmos e de nossa família

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Quando Deus visitou o Egito com a morte dos primogênitos, Deus deu ao seu povo a responsabilidade de proteger os primogênitos de Israel, passando sangue nos umbrais da porta (Êxodo 12). Quando Deus mandou serpentes para punir o seu povo, Ele providenciou um meio de salvação que deveria ser usado por aqueles que quisessem ser salvos (Números 21). Um versículo que achei bem interessante nesse sentido, é Deuteronômio 24.8: “Guarda-te da praga da lepra e tem diligente cuidado de fazer segundo tudo o que te ensinarem os sacerdotes levitas; como lhes tenho ordenado, terás cuidado de o fazer”. Assim como Jesus não tentou a Deus colocando a si mesmo em risco desnecessário (Mateus 4.5-7), devemos nós também tomar os devidos cuidados em meio a uma pandemia.

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(b) Em tempos de calamidade devemos cuidar dos necessitados

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Esse cuidado pessoal e pela família, no entanto, não pode nos levar a um estilo de vida egoísta que não faz nada por ninguém. Jesus, além de nos ter dado o seu exemplo de compaixão constante e amor sacrificial especialmente pelos marginalizados, também nos ensinou que no dia do grande julgamento, seremos julgados com base em como tratamos aqueles que estavam sofrendo: Mateus 25.34-40.

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Um dos ótimos exemplos bíblicos de cuidado cristão em meio à pandemia foi a coleta levantada por Paulo nas igrejas gentílicas para a igreja de Jerusalém (Romanos 15.14-32; 1Co 16.1-4; 2Co 8.1-9.15;). Assim como Ágabo havia profetizado (Atos 11.27-30), em torno de 46-47 d.C. uma grande seca causou uma forte fome no império romano, especialmente em Jerusalém. O historiador romano Suetônio, escreveu: “Houve uma escassez de comida que foi o resultado de colheitas ruins que ocorreram no espaço de vários anos”.[2] Josefo também comenta sobre essa fome.[3] Em meio a uma situação terrível de calamidade de fome, portanto, os irmãos da Macedônia, por exemplo, motivados por Paulo: “no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade” (2 Coríntios 8.2). Tempos de calamidade, portanto, são tempos de os cristãos demonstrarem o amor sacrifical e altruísta que marcou o seu Senhor. Assim, junto com Paulo, devemos sempre nos lembrar dos pobres (Gálatas 2.10).

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(c) Em tempos de calamidade devemos confiar em Deus

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Tempos de guerras, escassez, pestes e desastres naturais podem nos abalar profundamente. Como ficamos mais conscientes de nossa pequenez, fragilidade e impotência, tendemos a ficar desanimados, amedrontados e ansiosos. Mas Deus nos convida e relembrarmos que ele continua sendo o Deus que se assenta no trono (Êxodo 24.10; Salmo 9.4; Isaías 6, Ezequiel 1, Atos 7.56; Apocalipse 4—5).

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Assim, ainda que enfrentemos tribulações e angústias e ainda que fenômenos naturais terríveis acontecerem, Deus continua sendo o nosso refúgio e fortaleza, socorre bem presente no momento da angústia e, portanto, não temeremos (Salmo 46)! Mesmo em meio à pandemia, todas as coisas continuam operando conjuntamente para o bem de todos aqueles que amam a Deus e nada poderá nos separar do amor daquele que nos amou primeiro (Romanos 8.28-39). Com irmãos reformados ao longo das eras, devemos declarar que nosso único consolo na vida e na morte é: “Que não pertenço a mim mesmo, mas pertenço de corpo e alma, tanto na vida quanto na morte, ao meu fiel Salvador Jesus Cristo. Ele pagou completamente todos os meus pecados com o Seu sangue precioso e libertou-me de todo o domínio do diabo. Ele também me guarda de tal maneira que sem a vontade do meu Pai celeste nem um fio de cabelo pode cair da minha cabeça; na verdade, todas as coisas cooperam para a minha salvação. Por isso, pelo Seu Espírito Santo, Ele também me assegura a vida eterna e faz-me disposto e pronto de coração para viver para Ele de agora em diante”.[4]

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Com toda a ousadia e confiança do Salmo 91 bem interpretado, devemos ter a confiança plena de que Deus vai cuidar dos seus por meio da preservação do vírus, ou em meio à doença, ou usando a doença para conduzi-los à presença de Jesus no céu.

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(d) Em tempos de pandemia, devemos chorar, clamar, confessar a Deus

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Vivemos na era do entretenimento on demand. Raramente ficamos em silêncio, mas enchemos nossa vida de eletrônicos barulhentos que nos impedem de ficarmos a sós com nossos próprios pensamentos e com Deus. Sufocamos as tristezas por meio de séries e mais séries, filmes e mais filmes e outras experiências que levem a angústia para longe. Assim, na era Disneylândia e Marvel perdemos a capacidade de chorar, lamentar e confessar os nossos pecados de maneira profunda ao Senhor, tanto individual quanto coletivamente.

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Eu mesmo tenho uma dificuldade com a tristeza. Se a vejo ou a sinto quero logo acabar com ela. Mas Deus nos mostra uma realidade diferente na sua Palavra. Deus ensinou o seu povo a lamentar. O lamento bíblico é a atitude de sofrer diante de Deus por alguma coisa ruim que está acontecendo. Esse lamento pode ser invididual (Salmos 3-5; 9-10; 13-14; 22; 25; 39; 41; 42-43; 54-57; 69-71; 77; 86; 88 e 140-142) ou comunitários (12; 44; 58; 60; 74; 79; 80; 83 e 85). Além dos Salmos, encontramos lamento em Jó, Lamentações de Jeremias, Habacuque e nos próprio Senhor Jesus na cruz citando o Salmo 22. O lamento, essa atitude de chorar, clamar, confessar os pecados a Deus é a atitude mais comum encontrada nas Escrituras recomendada para tempos de calamidade, seja a calamidade que nós mesmos enfrentamos ou a que outras pessoas enfrentam.

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Confesso que no começo dessa pandemia, fiquei sem saber se deveria orar a Deus para que parasse o problema. Depois que me lembrei desses textos, no entanto, vi que essa é a atitude correta que devemos ter. Vejamos alguns exemplos de orações e prescrições de lamento feitas em meio ao sofrimento:

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Tem misericórdia de mim, ó Deus, tem misericórdia, pois em ti a minha alma se refugia; à sombra das tuas asas me abrigo, até que passem as calamidades. Salmos 57.1
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Ah! Meu coração! Meu coração! Eu me contorço em dores. Oh! As paredes do meu coração! Meu coração se agita! Não posso calar-me, porque ouves, ó minha alma, o som da trombeta, o alarido de guerra. Golpe sobre golpe se anuncia, pois a terra toda já está destruída; de súbito, foram destruídas as minhas tendas; num momento, as suas lonas. Jeremias 4.19-20

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Com lágrimas se consumiram os meus olhos, turbada está a minha alma, e o meu coração se derramou de angústia por causa da calamidade da filha do meu povo; pois desfalecem os meninos e as crianças de peito pelas ruas da cidade. Lamentações 2.11 (veja também os Salmos de lamento comunitário apresentados acima).

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A atitude de lamentar diante de Deus é o que Deus prescreveu para o seu povo quando ele os punisse com as maldições da aliança por causa dos seus pecados (Levítico 26 e Deuteronômio 27—30). A mesma atitude foi ensinada ao povo na época da dedicação do templo:

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Quando houver fome na terra ou peste, quando houver crestamento ou ferrugem, gafanhotos e larvas, quando o seu inimigo o cercar em qualquer das suas cidades ou houver alguma praga ou doença, toda oração e súplica que qualquer homem ou todo o teu povo de Israel fizer, conhecendo cada um a chaga do seu coração e estendendo as mãos para o rumo desta casa, ouve tu nos céus, lugar da tua habitação, perdoa, age e dá a cada um segundo todos os seus caminhos, já que lhe conheces o coração, porque tu, só tu, és conhecedor do coração de todos os filhos dos homens; para que te temam todos os dias que viverem na terra que deste a nossos pais. 1 Reis 8.37-40
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Quando houver fome na terra ou peste, quando houver crestamento ou ferrugem, gafanhotos e larvas, quando o seu inimigo o cercar em qualquer das suas cidades ou houver alguma praga ou doença, toda oração e súplica, que qualquer homem ou todo o teu povo de Israel fizer, conhecendo cada um a sua própria chaga e a sua dor, e estendendo as mãos para o rumo desta casa, ouve tu dos céus, lugar da tua habitação, perdoa e dá a cada um segundo todos os seus caminhos, já que lhe conheces o coração, porque tu, só tu, és conhecedor do coração dos filhos dos homens; para que te temam, para andarem nos teus caminhos, todos os dias que viverem na terra que deste a nossos pais. 2 Crônicas 6.28-31.[5]

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O pressuposto do lamento é a aliança que o povo tem com Deus e o fato de que Deus prometeu parar a maldição e restaurar o seu povo face ao arrependimento verdadeiro. Assim, nos momentos de sofrimento, mesmo que estejam caindo sobre pessoas ímpias, o cristão é chamado a clamar por misericórdia assim como Abraão clamou por Sodoma e Gomorra e como Moisés clamou pelo Egito. Não devemos nos alegrar com a tragédia alheia (Provérbios 17.5; Obadias 1.12-13), mas clamar que Deus lembre de sua misericórdia em meio à manifestação da sua ira (Habacuque 3.2). O povo de Deus sempre experimentou sofrimentos e sempre soube processar o seu sofrimento na presença de Deus. O lamento composto de clamor, confissão e choro é o idioma do sofrimento e nós precisamos reaprender a sofrer diante de Deus longamente, sem a necessidade de recorrer ao entorpecimento do entretenimento.

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Conclusão

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O que vimos nessa brevíssima teologia bíblica das calamidades. Vimos que as calamidades são parte do plano de Deus de conduzir todas as coisas aos pés de Jesus Cristo, o Senhor. Ao contrário de ter estragado todo o plano de Deus, o pecado fez com que os planos eternos do Senhor se concretizassem, planos estes que incluem as calamidades como punição, uma calamidade terrível no futuro, mas também Deus encarnado como o Salvador de nossas calamidades e de sua causa, o pecado. Jesus estabelecerá plena redenção e expurgará todo o sofrimento do mundo.

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Assim, cheios dessa esperança bendita, você e eu devemos (a) cuidar de nós mesmos e de nossa família; (b) cuidar dos necessitados; (c) confiar em Deus e (d) praticar o choro, o clamor e a confissão em forma de lamento diante de Deus. Que o Senhor nos ajude.

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Por João Paulo T. de Aquino

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[1] https://www.cardus.ca/comment/article/the-old-testament-holy-war-and-christian-morality/

[2] A vida de Cláudio, cap. 18. No mesmo capítulo, Suetônio comenta: “Quando houve uma escassez de comida por causa de delongadas secas, ele [o imperador Claudio] certa vez foi parado no meio do fórum por uma multidão e sofreu tantos abusos e, inclusive com pedaços de pão nele atirados que ele mal escapou para o seu palácio por uma porta dos fundos; e depois dessa experiência, ele usou todos os meios possíveis para trazer comida a Roma, mesmo na época do inverno”.

[3] “A chegada dela (rainha Helena) foi muito vantajosa para o povo de Jerusalém, pois uma fome os oprimia naquele tempo e muitos morreram por falta de dinheiro para comprar comida. A rainha Helena enviou alguns dos seus servos a Alexandria com dinheiro para comprar uma grande quantidade de comida e outros para Chipre para trazer de volta um carregamento de figos secos. Eles voltaram rapidamente com provisões que foram imediatamente distribuídas aos necessitados. Dessa forma, ela deixou um memorial excelente pela beneficência demonstrada para com a nossa nação. E quando o seu filho, Izates, foi informado dessa fome, ele enviou grande somas de dinheiro, principalmente para os homens em Jerusalém”. Antiguidades 20.2.5 49-53

[4] Catecismo de Heidelberg, pergunta 1.

[5] Veja outros textos:

  • Quando o teu povo sair à guerra contra o seu inimigo, pelo caminho por que os enviares, e orarem a ti, voltados para esta cidade, que tu escolheste, e para a casa que edifiquei ao teu nome, ouve tu dos céus a sua oração e a sua súplica e faze-lhes justiça. Quando pecarem contra ti (pois não há homem que não peque), e tu te indignares contra eles e os entregares às mãos do inimigo, a fim de que os leve cativos a uma terra, longe ou perto esteja; e na terra aonde forem levados caírem em si, e se converterem, e na terra do seu cativeiro te suplicarem, dizendo: Pecamos, e perversamente procedemos, e cometemos iniquidade; e se converterem a ti de todo o seu coração e de toda a sua alma, na terra do seu cativeiro, para onde foram levados cativos, e orarem, voltados para a sua terra que deste a seus pais, para esta cidade que escolheste e para a casa que edifiquei ao teu nome, ouve tu dos céus, do lugar da tua habitação, a sua prece e a sua súplica e faze-lhes justiça; perdoa ao teu povo que houver pecado contra ti. 2 Crônicas 6.34-39.
  • Se eu cerrar os céus de modo que não haja chuva, ou se ordenar aos gafanhotos que consumam a terra, ou se enviar a peste entre o meu povo; se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra. 2 Crônicas 7.13-14
  • Se algum mal nos sobrevier, espada por castigo, peste ou fome, nós nos apresentaremos diante desta casa e diante de ti, pois o teu nome está nesta casa; e clamaremos a ti na nossa angústia, e tu nos ouvirás e livrarás. 2 Crônicas 20.9
  • Notareis as brechas da Cidade de Davi, por serem muitas, e ajuntareis as águas do açude inferior. Também contareis as casas de Jerusalém e delas derribareis, para fortalecer os muros. Fareis também um reservatório entre os dois muros para as águas do açude velho, mas não cogitais de olhar para cima, para aquele que suscitou essas calamidades, nem considerais naquele que há muito as formou. O Senhor, o Senhor dos Exércitos, vos convida naquele dia para chorar, prantear, rapar a cabeça e cingir o cilício. Porém é só gozo e alegria que se veem; matam-se bois, degolam-se ovelhas, come-se carne, bebe-se vinho e se diz: Comamos e bebamos, que amanhã morreremos. Mas o Senhor dos Exércitos se declara aos meus ouvidos, dizendo: Certamente, esta maldade não será perdoada, até que morrais, diz o Senhor, o Senhor dos Exércitos. Isaías 22.9-14