O presbiterianismo Norte-americano


PARTE 1

 

O principal grupo formador da igreja presbiteriana nos Estados Unidos foram os escoceses-irlandeses, ou seja, os descendentes de escoceses que haviam se fixado no norte da Irlanda e posteriormente emigraram para a América. Durante o século 18, pelo menos 300 mil cruzaram o Atlântico, indo radicar-se principalmente nas colônias centrais: Nova York, Nova Jersey, Pensilvânia, Maryland, Virgínia, Carolina do Norte e Carolina do Sul. No oeste da Pensilvânia, eles fundaram a cidade de Pittsburgh, por muitos anos considerada a cidade mais presbiteriana dos Estados Unidos.

 

Já no século 17 haviam surgido diversas igrejas locais presbiterianas, que viviam isoladas umas das outras. No início do século seguinte elas começaram a unir-se em concílios, uma das principais características do presbiterianismo. O principal líder dessa iniciativa foi o Rev. Francis Makemie (1658-1708), o “pai do presbiterianismo americano”. Ordenado na Irlanda em 1683, ele foi logo em seguida para a América do Norte. Fundou diversas igrejas em Maryland e outras regiões, e viajou extensamente incentivando os presbiterianos. Como a Igreja Anglicana era a igreja oficial em várias colônias, ele sofreu perseguições; chegou mesmo a ser preso em Nova York em 1706.

 

Sob a liderança de Makemie, foi organizado em 1706 o Presbitério de Filadélfia, o primeiro do país, com a presença de sete pastores e alguns presbíteros. Em 1717, a existência de três presbitérios permitiu a criação do Sínodo de Filadélfia. Nessa época, a denominação tinha apenas 19 pastores, 40 igrejas e cerca de três mil membros. Em 1729 foi aprovado o Ato de Adoção, que aprovou a Confissão de Fé e os Catecismos de Westminster como os padrões doutrinários do Sínodo. Outro líder destacado dessa época foi o Rev. Gilbert Tennent (1703-1764), um dos precursores do Primeiro Grande Despertamento, que estudou no Log College (Colégio de Toras), a primeira escola para preparação de pastores.

 

Entre 1741 e 1758, devido a diferenças acerca do avivamento e da educação teológica, os presbiterianos se dividiram em dois grupos: Ala Velha (Sínodo de Filadélfia) e Ala Nova (Sínodo de Nova York). Nesse período de divisão, vários evangelistas notáveis como Samuel Davies, Alexander Craighead e Hugh McAden trabalharam com grande êxito no sul do país, especialmente na Virgínia e nas Carolinas. Durante a Revolução Americana os presbiterianos tiveram uma atuação destacada, muitos deles tendo lutado na guerra de independência. O Rev. John Witherspoon (1723-1794), um escocês que foi presidente do Colégio de Nova Jersey (a futura Universidade de Princeton), fundado em 1746, foi o único pastor que assinou a Declaração de Independência dos Estados Unidos, em 1776.

 

Em 1788, o Sínodo de Nova York e Filadélfia dividiu-se em quatro (Nova York e Nova Jersey, Filadélfia, Virgínia e Carolinas) e no dia 21 de maio de 1789 reuniu-se pela primeira vez a Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América. Na época, a Igreja Presbiteriana era a denominação mais influente da nova nação. Em 1800, contava com cerca de 180 pastores, 430 igrejas e 20 mil membros. Ao longo do século 18, surgiram outros dois grupos presbiterianos nos Estados Unidos: a Igreja Presbiteriana Reformada e a Igreja Presbiteriana Associada, que se uniram em 1781.

 

PARTE 2

 

O Segundo Grande Despertamento, que surgiu por volta de 1800 e se estendeu por várias décadas, gerou enorme crescimento nas igrejas protestantes dos Estados Unidos, inclusive a presbiteriana. Em 1801, os presbiterianos e os congregacionais iniciaram um trabalho cooperativo, o Plano de União, que durou quase 40 anos e resultou na criação de muitas igrejas no Estado de Nova York e regiões vizinhas. As duas igrejas também cooperaram na criação da Junta Americana de Comissionados para Missões Estrangeiras (Boston, 1810), a primeira agência de missões internacionais dos Estados Unidos. Pouco depois, em 1812, foi fundado em Nova Jersey o Seminário Teológico de Princeton, o mais importante da denominação, e em 1816 foi criada a Junta de Missões Nacionais. Em 1837, graças ao avivamento e ao esforço missionário, a Igreja Presbiteriana tinha crescido para 2.140 pastores, 2.965 igrejas e 220.000 membros (onze vezes mais que em 1800).

 

Várias controvérsias abalaram o presbiterianismo americano nesse período. Em 1810, um grupo que defendia padrões menos rigorosos de preparação para o ministério e a ordenação de leigos que não haviam feito os estudos teológicos regulamentares criou a Igreja Presbiteriana de Cumberland. Mais importante foi a divisão entre as correntes conhecidas como Velha Escola e Nova Escola. A primeira, mais forte nos estados centrais e do sul, tinha reservas quanto ao avivamento e era fortemente apegada aos padrões de Westminster. A Nova Escola, localizada em Nova York e na Nova Inglaterra, defendia um calvinismo atenuado. Em 1837, a Velha Escola adquiriu o controle da Assembléia Geral, cancelou o Plano de União e excluiu quatro sínodos inteiros, que haviam sido organizados sob esse plano, surgindo duas denominações distintas que ficaram separadas por mais de 30 anos. Na mesma ocasião, foi criada a Junta de Missões Estrangeiras, sediada em Nova York. Essa junta enviaria Ashbel G. Simonton para o Brasil em 1859.

 

O problema angustioso da escravidão gerou novas dificuldades. Em 1857, os presbiterianos da Nova Escola se dividiram entre o norte e o sul. Quatro anos depois, em 1861, a Velha Escola também se dividiu entre as duas regiões, o que levou ao surgimento da Igreja Presbiteriana dos Estados Confederados ou Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, mais conhecida como Igreja do Sul (PCUS). Finalmente, em 1870 a Velha Escola e a Nova Escola voltaram a se unir no norte, após 33 anos de separação. Essa denominação majoritária ficou conhecida como a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América (PCUSA). Em 1875, essa igreja liderou a criação da Aliança Presbiteriana Mundial. A Igreja do Norte investiu maciçamente em missões nacionais, especialmente no oeste americano, que experimentava extraordinário desenvolvimento, e também na obra missionária no exterior. Em 1900, a igreja atingiu a marca de um milhão de membros.

 

A Igreja do Sul permaneceu solidamente Velha Escola, através de teólogos influentes como Robert L. Dabney, James H. Thornwell e Benjamin M. Palmer. Defendia a “doutrina da igreja espiritual”, evitando o envolvimento com questões políticas e sociais e concentrando-se na evangelização. Insistia na igualdade entre presbíteros docentes e regentes no governo dos concílios e entendia que as atividades da igreja deviam ser realizadas por comissões responsáveis perante a Assembléia Geral, e não por juntas semi-independentes. No mesmo ano da sua organização, a PCUS criou o Comitê Executivo de Missões Estrangeiras, que começou a atuar no Brasil em 1869.

 

PARTE 3

 

Durante o século 20, o presbiterianismo dos Estados Unidos foi marcado por grandes controvérsias teológicas, que resultaram em muitos realinhamentos institucionais. No início do século, em 1903, a Igreja do Norte (PCUSA) revisou o texto da Confissão de Fé de Westminster, visando atenuar certas ênfases do calvinismo histórico. Isso facilitou a fusão com a Igreja Presbiteriana de Cumberland, em 1906. Essa igreja cria no livre arbítrio e rejeitava o conceito de depravação total. Todavia, muitos de seus membros não aceitaram a fusão e permaneceram como uma denominação separada.

 

Um conflito mais dramático abalou a igreja majoritária nas décadas de 1920 e 1930 – a luta entre modernistas e fundamentalistas. Um grupo intermediário, os moderados, acabou se colocando ao lado dos liberais, que sucessivamente assumiram o controle do Seminário de Princeton, da Junta de Missões Estrangeiras e da Assembléia Geral. O principal líder dos conservadores foi J. Gresham Machen (1881-1937), que deixou a igreja em 1936 para ser um dos fundadores do Seminário Westminster, em Filadélfia, e da Igreja Presbiteriana Ortodoxa. Um grupo extremado, liderado por Carl McIntire, fundou a Igreja Presbiteriana da Bíblia.

 

Em 1930, a PCUSA tornou-se a primeira grande denominação americana a ordenar mulheres ao presbiterato; em 1956, passou também a ordenar pastoras. Dois anos depois, em 1958, a Igreja do Norte uniu-se à pequena Igreja Presbiteriana Unida da América do Norte, adotando o nome de Igreja Presbiteriana Unida, EUA. A nova denominação procurou redefinir-se teologicamente na Confissão de 1967, que representou uma ruptura final com a Confissão de Fé de Westminster. Aquela breve declaração acentuava o amor de Deus, a reconciliação e a fé em Jesus Cristo essencialmente em termos neo-ortodoxos. Algumas antigas confissões cristãs foram mantidas no Livro de Confissões, mais ou menos como documentos históricos.

 

A velha Igreja do Sul, criada em 1861, permaneceu conservadora até a década de 1960. Após intensos debates, ela fundiu-se com a Igreja Presbiteriana Unida em 1983, dando origem à atual Igreja Presbiteriana (E.U.A.). Essa fusão foi facilitada pelo afastamento dos conservadores da Igreja do Sul, em 1973, para formar a Igreja Presbiteriana da América (PCA). Alguns anos depois, em 1981, foi criada a Igreja Presbiteriana Evangélica (EPC), composta de congregações que deixaram a antiga Igreja do Norte pouco antes da fusão com a Igreja do Sul.

 

Ao longo do século 20, a agenda da PC(USA) foi dominada pelo ecumenismo e por uma grande variedade de temas políticos e sociais, tais como direitos humanos, feminismo, aborto e homossexualismo. Nas últimas décadas, essa igreja passou a experimentar forte declínio numérico, que tem persistido até o presente. As denominações conservadoras, tais como a PCA e a EPC, têm tido um considerável crescimento, em parte como resultado de sua ênfase evangelística e em parte por absorverem membros saídos dos grupos progressistas. Quanto ao número total de membros, as maiores denominações presbiterianas dos Estados Unidos eram as seguintes no ano 2000: PC(USA) – 3.645.000; PCA – 278.000; I. P. de Cumberland – 88.000; EPC – 57.500. As maiores denominações reformadas eram a Igreja Reformada da América – 312.000, e a Igreja Cristã Reformada da América do Norte – 280.000, ambas de origem holandesa.