A igreja reformada da França


Uma das características do movimento reformado ou calvinista do século XVI foi a sua rápida e ampla difusão em muitas partes da Europa. Um dos primeiros países atingidos foi a França, a pátria de João Calvino e vizinha da Suíça, o berço do movimento. O precursor da Reforma Protestante na França foi o humanista Jacques Lefèvre D’Étaples (c. 1455-1536), que deu ênfase à autoridade das Escrituras e a outros conceitos abraçados pelos protestantes. O movimento reformado francês surgiu na década de 1530, mas as primeiras congregações foram dispersas pela repressão religiosa. O rei Francisco I (1515-1547) e seu filho Henrique II (1547-1559) perseguiram duramente os reformados. Como já foi visto, ao publicar asInstitutas em 1536, Calvino incluiu um prefácio em que apelava a Francisco I por tolerância para com os evangélicos.

Em 1555, foi organizada em Paris a primeira igreja reformada e nos anos seguintes muitas outras surgiram no interior do país. Isso possibilitou que, em 1559, se reunisse nas proximidades da capital francesa o primeiro sínodo nacional da Igreja Reformada da França, representando centenas de comunidades. Essa foi a primeira vez em que uma igreja reformada ou presbiteriana organizou-se em âmbito nacional. Esse sínodo aprovou uma importante declaração de fé, a Confissão Galicana, cujo texto básico foi redigido pelo próprio Calvino. No mesmo ano, esse reformador fundou a Academia de Genebra, cujo principal objetivo era formar pastores para as igrejas da França.

As igrejas calvinistas francesas eram compostas de artesãos, comerciantes e até mesmo de algumas famílias nobres, como os Bourbon e os Montmorency. Os reformados franceses, conhecidos como huguenotes, estavam concentrados principalmente no oeste e no sudoeste do país, e recebiam o valioso apoio de Genebra. O crescimento do movimento reformado levou ao surgimento de duas facções político-religiosas: de um lado os huguenotes, tendo como líderes o almirante Gaspard de Coligny, Luís de Condé e Henrique de Navarra; do outro lado, o partido radical católico, concentrado no norte e no leste do país, e liderado pela poderosa família Guise-Lorraine.

Em 1559, o rei Henrique II morreu em uma competição esportiva, sendo sucedido no trono por seus três filhos, que receberam forte influência da mãe, a italiana Catarina de Médicis. Durante o breve reinado de Francisco II (1559-1560), os Guise controlaram o governo. Em 1560, foi descoberta uma conspiração dos Bourbon contra eles e os rebeldes foram barbaramente executados. Quando Carlos IX (1560-1574) tornou-se rei, sendo ainda menor, Catarina assumiu a regência, mostrando-se inicialmente amistosa para com os huguenotes.

Em setembro de 1561, tentando apaziguar os ânimos entre os dois grupos, a Rainha Regente convocou as lideranças católicas e reformadas para um encontro que ficou conhecido como Colóquio de Poissy. A delegação huguenote foi chefiada por Teodoro Beza, pastor auxiliar de Calvino. O objetivo era a busca de um entendimento na área teológica, o que levaria à pacificação no âmbito político. O fracasso desse encontro abriu caminho para as guerras religiosas que atormentaram a França durante várias décadas (1562-1598), dando início a um longo período de provações para as igrejas huguenotes.

 

PARTE 2

 

A partir de 1562, a França foi abalada por uma série de guerras entre católicos e protestantes. A primeira delas teve início com o “massacre de Vassy”, em 1º de março, quando soldados do duque Francisco de Guise atacaram um grupo de huguenotes que realizavam um culto em um celeiro, matando cerca de 60 pessoas. Seguiram-se outras duas guerras entre 1567 e 1570.

 

No meio desse sofrimento, as igrejas reformadas continuavam crescendo em muitas regiões do país, mas esse crescimento gerava intensa preocupação em alguns círculos políticos e religiosos, produzindo novos confrontos. Nos conflitos, geralmente, ocorria o seguinte padrão: os huguenotes costumavam atacar edifícios católicos e destruir objetos sagrados; os católicos reagiam atacando e matando pessoas.

 

O episódio mais brutal dessas hostilidades foi o massacre do dia de São Bartolomeu. Em 18 de agosto de 1572, realizou-se em Paris o casamento do príncipe protestante Henrique de Navarra com a princesa Margarete de Valois, filha de Catarina de Médicis e irmã do rei Carlos IX. Toda a elite dos huguenotes foi à capital a fim de participar das festividades. No dia 22, o almirante Gaspard de Coligny sofreu um atentado, mas sobreviveu. Os huguenotes ficaram indignados e exigiram providências por parte do governo. Esse evento foi o estopim do massacre. No dia seguinte, o rei, seu irmão Henrique (duque de Anjou), Catarina e seus conselheiros concluíram que os líderes huguenotes deviam ser eliminados.

 

Na madrugada do domingo 24 de agosto de 1572, sob o comando de Henrique, duque de Guise, as tropas reais assassinaram o almirante Coligny e outros líderes. Estimulados por isso, milicianos e extremistas começaram uma prolongada orgia de saques e matanças, trucidando indiscriminadamente homens, mulheres e crianças. Logo os massacres se estenderam a outras cidades. Uma estimativa conservadora calcula que houve 3000 vítimas em Paris e outras 8000 no interior do França. O papa Gregório XIII exultou, lançando uma medalha especial e contratando a produção de vários afrescos para comemorar o evento.

 

Muitos protestantes conseguiram escapar. Alguns se refugiaram nas fortalezas de Sancerre e La Rochelle e milhares fugiram para Genebra, Basiléia, Estrasburgo ou Londres. Infelizmente, muitos outros abjuraram a sua fé. Teodoro Beza observou: “O número de apóstatas é quase impossível de contar”. O massacre do dia de São Bartolomeu deu início a mais uma guerra, a quarta, que só terminou com uma trégua em 1574. Nesse ano, subiu ao trono Henrique III (1574-1589), em cujo reinado houve outras três guerras.

 

Em 1589, tornou-se rei da França o príncipe protestante Henrique de Navarra, com o título de Henrique IV (1589-1610). Era filho da piedosa calvinista Jeanne D’Albret. Quatro anos depois, Henrique, que era famoso pelas suas vacilações religiosas, converteu-se ao catolicismo para assegurar a posse do trono. Segundo consta, ele teria dito: “Paris vale uma missa”.