Plantio de Novas Igrejas: Uma Análise Conceitual Preliminar

Jedeias Duarte

14 November 2017

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Plantio de Novas Igrejas: Uma Análise Conceitual Preliminar

Plantio de Novas Igrejas: Uma Análise Conceitual Preliminar

RESUMO

 

Este artigo aborda o tema do plantio de novas igrejas sob a perspectiva das raízes bíblicas reformadas. Sua premissa é de que o plantio de novas igrejas realizado por missionários cristãos segue o mesmo padrão do trabalho levado a efeito pelos apóstolos, no estabelecimento de igrejas locais. Sua ação é descrita na Grande Comissão do Senhor Jesus Cristo e seu processo de semeadura do evangelho, também no plantio de igrejas, envolve a participação de todo crente. O presente artigo propõe, então, um sentido teológico de plantação de igrejas. A partir da exploração bíblica, especificamente dos avanços do apóstolo Paulo, analisa algumas vertentes atuais de modelos de plantação de igrejas e a literatura pertinente. São considerados os vínculos que o movimento de plantação de igrejas mantém com o antigo Movimento de Crescimento da Igreja, especialmente no que diz respeito à busca de resultados numéricos e estatísticos. A seguir, considera alguns referenciais reformados, observando a influência, os conceitos e as metodologias apresentadas na sua literatura. Por fim, aproxima-se do movimento a partir de um dos seus principais referenciais na atualidade, Timothy Keller, observando pontos positivos e negativos dos conceitos e modelos apresentados.

 

PALAVRAS-CHAVE

 

Plantação de igrejas; Plantadores de igrejas; Timothy Keller; Crescimento da igreja.

 

INTRODUÇÃO

 

O plantio consciente e estratégico de novas igrejas não é uma característica apenas dos últimos 30 ou 40 anos. Foi um dos principais objetivos das viagens missionárias do apóstolo Paulo. Entretanto, parece-nos que, na metodologia paulina, o estabelecimento institucional de novas igrejas não foi o foco último, mas a consequência de uma ação de maiores dimensões. As igrejas surgiram como resultado de conversões e da consequente reunião de crentes em comunidades locais, com ênfase em seu discipulado nas Escrituras. Obedientes à Palavra, cuidavam uns dos outros e se multiplicavam por meio do testemunho eficaz e vivo a todas as pessoas, especialmente às que ainda não eram convertidas.

 

A motivação paulina para espalhar o evangelho era caracterizada pela obediência ao chamado do Senhor (At 16.10; Rm 1.16; 1Tm 1.12). Ele mesmo declara, sistematicamente, que fora chamado para pregar o evangelho (2Co 5.18-20). Na perspectiva paulina, o alcance dos não convertidos com o evangelho e o plantio de igrejas eram faces da mesma moeda. O plantio estabelecido pelo apóstolo era a semeadura do evangelho (1Co 3.6) e não a institucionalização de novas igrejas. Fica claro que as igrejas surgiam como consequência da conversão de pessoas e de suas famílias e sua necessária união como família de Deus. A motivação evangelística e missionária para a transmissão do evangelho precedia a motivação de iniciar igrejas institucionais.

 

O foco a priori no plantio da igreja como estrutura institucional poderá esvaziar a motivação evangelística primária, que é o anuncio do evangelho tendo o discipulado como moção inicial direta. Enquanto isso não ocorrer não terá havido o cumprimento da Grande Comissão na totalidade de sua essência e extensão. A própria necessidade da estruturação de uma nova igreja não deverá abrigar outras motivações senão as do alcance de pessoas não convertidas – de uma dada cultura, região, classe social, cidade ou etnia – e o subsequente aperfeiçoamento dos santos.

É possível afirmar que o plantio de novas igrejas se iniciou com as viagens missionárias do apóstolo Paulo, no primeiro século, em cumprimento da Grande Comissão, tendo sido efetuado no atendimento ao chamado do Espírito Santo: “E servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado” (At 13.2). As Escrituras Sagradas, especialmente no livro de Atos dos Apóstolos, mostram que, à medida que viajavam, Paulo e suas equipes estabeleciam novas igrejas nas mais diversas cidades das províncias romanas (At 13.1 a 21.26). Algumas marcas autenticaram esta prática, entre elas, a autonomia das congregações observada na eleição de presbíteros: “… e, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido” (At 14.23). Esses presbíteros assumiam o pastorado e a administração das igrejas, e reproduziam o processo evangelização e edificação individual e corporativa no plantio de novas igrejas.

 

Ao longo da história da igreja, surgiram diversos movimentos que espalharam a fé cristã e que podem ser vistos como movimentos de plantação de igrejas, tanto no sentido local quanto no sentido amplo e institucional. É possível indicar algumas vertentes dessas ações dentro da própria igreja romana, a qual disseminou a fé acoplada com a estrutura hierárquica de tradição e sacerdotalismo. Caracteristicamente, houve uma contextualização do evangelho na cultura e adaptação a elementos culturais e religiosos, com o fim de “converter” pagãos dentre os povos, criando-se, assim, um sincretismo religioso em diversas épocas e regiões.1

 

O surgimento de novas igrejas sempre esteve relacionado ao serviço missionário da igreja. Isso é visto principalmente a partir da Reforma Protestante do século 16 e dos movimentos missionários oriundos da base teológica firmada pela Reforma para o crescimento integral da igreja. Quando à literatura exemplar, encontramos em J. L. Nevius (1829-1893)2 as primeiras formatações terminológicas atualmente utilizadas no movimento de plantação de igrejas. Observando a história da expansão da igreja, o leitor poderá concluir que, ao longo dos séculos, a igreja esteve voltada para sua multiplicação, em obediência ao mandamento do Senhor sob a regência do Espírito Santo. O Espírito é sempre o agente real da multiplicação da igreja mediante a aplicação das Escrituras ao coração dos eleitos.

 

1. ASPECTOS DISTINTOS DO PLANTIO DE NOVAS IGREJAS

 

As convicções eclesiológicas dos plantadores interferem no DNA3 das novas igrejas e na formatação do movimento missionário a ser desenvolvido ou, até mesmo, criado por elas. Neste sentido, o movimento missionário mundial recebeu um ânimo extra e passou a ser observado mediante a utilização de ferramental das ciências sociais, como proposto pelo Movimento de Crescimento da Igreja (MCI). Isso quer dizer que uma igreja, ou um movimento missionário, passou a ser analisada não em virtude de sua pureza teológica ou de sua aproximação dos princípios das Escrituras, mas em função de resultados numéricos e sociais ao longo de um período de tempo. Wagner expressa sua convicção quanto aos resultados do MCI na plantação de novas igrejas: “O método evangelístico mais eficaz debaixo do céu é plantar igrejas”.4 O MCI pode ser analisado em um período de tempo que vai de 1950 a 2000. Metade da história do movimento missionário do século 20 foi impactada pelo MCI e os seus efeitos podem ser observados em ações missionárias da igreja nos dias de hoje.

Uma das observações possíveis poderá ser feita no Movimento de Plantação de Igrejas (MPI), com seu uso do instrumental secular, evidente, por um lado, nos meios acadêmicos, através da literatura e das pesquisas, por outro, na prática dos projetos e campos missionários, principalmente nos grandes centros urbanos. As ferramentas e alguns dos princípios das ciências sociais utilizados pelo MCI foram conectados ao MPI. Assim, o plantio de novas igrejas passou a usar ferramentas utilizadas por expoentes e pesquisadores do crescimento da igreja. Em muitos lugares e em muitas correntes teológicas, o MCI tornou-se base teórica para o movimento de plantio de novas igrejas. As igrejas nascentes ficaram expostas aos mesmos riscos do antigo movimento, tanto em razão da ausência de princípios e práticas das Escrituras Sagradas como instrumento normativo, quanto em razão da anuência aos pressupostos iniciais e finais desses pesquisadores. Também é possível observar que, em lugares e projetos nos quais os princípios bíblicos são referenciais absolutos, a conclusão é que o movimento de plantação de igrejas poderá se tornar o maior referencial de expansão missionária para os próximos 100 anos.

A bem da verdade, é preciso reconhecer, ainda, que houve uma influência positiva do MCI no despertamento da igreja para o mundo. Até mesmo em relação a expoentes como Wagner, não se poderá negar que o MCI foi usado por Deus para estimular a igreja a um novo momento missionário, cujo ápice é o esforço para a plantação de igrejas. Nessa perspectiva, em termos da evangelização e do crescimento da igreja, muitas das ferramentas anteriormente estabelecidas como “pontes científicas” entre a teologia e as ciências sociais fizeram-se aceitáveis pela eficiência no trabalho missionário, especialmente nos grandes centros urbanos.

 

Wagner justifica o plantio de novas igrejas fazendo afirmações importantes e motivadoras para o movimento:

Novas igrejas são um ponto chave para o evangelismo; novas igrejas crescem mais do que antigas; novas igrejas oferecem opções aos que não têm igreja; geralmente novas igrejas são necessárias [levantando-se contra o argumento de que em determinadas áreas já existe um numero suficiente de igrejas]; novas igrejas ajudam as denominações a sobreviverem e novas igrejas ajudam a suprir as necessidades dos cristãos.5

 

Ele aponta também outra inclinação para o movimento de plantação de igrejas, em uma abordagem transcultural, considerando:

… cerca de 70% das etnias até agora ainda não possuem uma igreja evangelística em sua cultura. Isto soma aproximadamente dois bilhões de pessoas. Elas não serão ganhas para Cristo se alguém não entrar em sua cultura com o amor de Cristo e começar a plantar igrejas. A rapidez com que serão ganhas para Cristo será diretamente proporcional à rapidez da multiplicação de igrejas.6

 

Wagner ainda estabelece uma estratégia alternativa para os demais métodos de evangelização por meio do plantio de novas igrejas, a que chama de evangelização incorporativa, e que entende como sendo um envolvimento com Cristo e com o seu corpo7. Entretanto, a busca de resultados satisfatórios, incluindo taxas de crescimento sistematicamente apontadas, configura colisão com princípios bíblicos da dependência da ação de Deus e da soberania de Deus para o crescimento da igreja.

 

Na estratégia elaborada por Wagner,8 aparecem alguns princípios iniciais da hermenêutica cultural, principalmente a elaboração de pesquisas de campo, e busca-se o estabelecimento de alvos para a multiplicação de igrejas. Nas pesquisas por ele elaboradas existe um forte envolvimento com as ciências sociais, com alguns pontos da teologia arminiana e com o paganismo. Ele relaciona as pesquisas preliminares, “buscando conhecer o grau de resistência e reciprocidade ao evangelho”, seguida de uma pesquisa diagnóstica que observa o crescimento numérico da igreja nos últimos dez anos, tentando responder à indagação: o que tem acontecido nesta igreja, neste período, e por que isto tem acontecido? Apresenta a pesquisa de avaliação, estabelecendo o que chama de pragmatismo saudável com alvos para o crescimento numérico da igreja em uma linha de tempo dimensionada.

 

Wagner apresenta um pluralismo tanto metodológico quanto teológico, dogmatizando métodos e movimentos. Uma de suas afirmações teológicas aponta este fato ao afirmar que “plantar novas Igrejas é a metodologia evangelística mais eficaz que se conhece debaixo do céu”.9 Diante deste dogma, ele apresenta uma visão antropocêntrica que exclui o ensino bíblico da obra soberana do Espírito Santo.

 

Não devemos excluir a possibilidade do uso de métodos e estratégicas na evangelização e discipulado dos não convertidos e de novos convertidos. Contudo, qualquer método que assuma a direção do processo evangelístico destoará da perspectiva bíblica do Senhor Jesus Cristo como aquele que edifica a sua própria igreja. Isto pode ser observado a partir de outros autores, como Van Rheenen que, em outra perspectiva teológica, sistematizou os fundamentos iniciais para o movimento de plantação de igrejas.

 

Para Van Rheenen, que expressa a validade dos métodos e estratégias, sem, contudo, estabelecê-los como princípios normativos para o crescimento da igreja, a questão é esta: a ausência de profundidade teológica traz superficialidade ao trabalho missionário.10

 

Tal perspectiva difere teologicamente do ponto de vista de Wagner, pois se afasta de um passeio pragmático nos jardins das ciências sociais. A abordagem de Van Rheenen não exclui métodos, mas coloca a igreja como dependente dos princípios das Escrituras.

 

2. PERSPECTIVAS REFORMADAS PARA O PLANTIO DE NOVAS IGREJAS

 

Essa conexão com os princípios das Sagradas Escrituras também é vital em Murray, que localiza o movimento de plantação de igrejas no ambiente da teologia sistemática, partindo do pressuposto de que está relacionada com a eclesiologia. Ainda que admita a ausência do verbete na enciclopédia teológica, Murray justifica o fato levando em conta o provável trabalho de teólogos que vêem a eclesiologia a partir de um contexto estático e não dinâmico.11 Para ele, a eclesiologia estática e a marginalização da missiologia nos termos das discussões teológicas são pontos que necessitam de mudanças, a fim de que a plantação de igrejas receba estímulo e possa ter seus desafios corretamente orientados.

 

É possível que essa observação de Murray se deva à dificuldade que existe em conectar a expansão da igreja na época de Reforma Protestante com um movimento sistematizado do modo como ocorreu nos séculos 18 e 19. Essa leitura é equivocada, pois desconsidera a motivação teológica da Reforma em termos da igreja e do mundo como uma onda geradora de avivamentos e movimentos missionários, tanto nos séculos que a sucederam quanto em nossos dias. Para os reformadores e seus sucessores, parece-nos, a expansão da igreja acontecia naturalmente com a fiel exposição das Escrituras, com a fiel ministração dos sacramentos e com o fiel exercício da disciplina. Assim, entendemos que a eclesiologia não deverá ser estática. Seu dinamismo acontece por meio da ação provocadora e impulsionadora do Espírito Santo na ecclesia. Isso é observado quando lemos, na história, a semeadura do evangelho mediante a pregação das Escrituras e, no testemunho dos crentes, segundo uma vida de santidade.

 

Para Murray, a plantação de igrejas acontece a partir de três conceitos teológicos: a missão de Deus, a encarnação de Cristo e o Reino de Deus:12

Plantação de igrejas não é um fim em si mesmo, porém um aspecto da missão de Deus no qual igrejas recebem o privilégio de participar. Nós podemos entender o escopo e as implicações desta missão, e o lugar da plantação, a partir de três conceitos teológicos importantes.13

 

Murray percebe corretamente que os princípios teológicos exercem influência na estratégia, na elaboração mental do planejamento e na prática de plantar novas igrejas. Isto, por um lado, leva os plantadores a analisar modelos e tradições existentes de plantio de novas igrejas e, por outro lado, torna-os predispostos a avaliar novos modelos. Assim os referenciais teológicos são vistos como impulsionadores e como freios de qualquer mudança ou estagnação dentro de um determinado modelo.

 

Murray escreve que a plantação de igrejas poderá se tornar uma interface entre a eclesiologia e a missiologia14 e, ainda, fortalecer ambas as áreas de maneira cruzada.15 Um dos fundamentos dessa conexão está na interpretação que Murray faz da resposta à primeira pergunta do Catecismo de Westminster: Qual o fim supremo e principal do homem? O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. Ele expressa assim:

Se a igreja adora ao Deus missionário, sua participação na Sua missão é uma expressão de adoração. A dicotomia entre adoração e missão é inadequada, pois limita a visão [do propósito do homem para com Deus]… Onde quer que uma igreja seja plantada, aceitamos que seja um dos meios para cumprir a missão; isto traz uma multiplicação de adoradores… A igreja é uma expressão da adoração, estabelecendo novas comunidades de adoradores.16

 

Newton também apresenta uma proposta bíblica que se contrapõe à estrutura do MCI e de suas correntes pragmáticas. Segundo ele, o crescimento da igreja acontece durante a pregação do evangelho e não necessita de nenhum outro meio para auxiliar o Espírito Santo na execução do seu ministério de transformação do pecador eleito em membro do corpo de Cristo:

Aqui está precisamente a questão: é somente pela loucura da pregação do evangelho que os incrédulos podem ser salvos (1 Co 1.18-2.5). Sim, Jesus falou de modo interessante e inteligível, e é assim que nós devemos pregar o evangelho. Mas ele nunca “fantasiou” o evangelho para torná-lo mais palatável aos ouvidos incrédulos. O evangelho nem mesmo parece evangelho em muitas igrejas que alegam amar a mensagem de Cristo.17

 

Para Newton, o crescimento da igreja acontece a partir do profundo convencimento da liderança acerca da suficiência das Escrituras, para que possam assim exercer o ministério cristão. Tanto para o nascimento da fé como dom de Deus quanto para a prática da fidelidade como ação do Espírito, a partir da firme convicção de que as Escrituras são suficientes e de que elas apontam o evangelho como o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crer (Rm 1.16) – o que em nenhum momento indica o homem como agente direto da salvação.

… Os ministros do evangelho devem estar convictos de seu papel como mensageiros e arautos, sem confundir seu papel com o do Espírito Santo; o ministro do evangelho deve estar convencido de que o Senhor pode e salvará os pecadores e santificará os santos.18

 

Newton estabelece uma diferença significativa entre a igreja de Cristo e qualquer outra corporação no mundo, sendo que o crescimento da igreja é fruto da proclamação das Escrituras e do testemunho dos fiéis. Desta forma, ele rompe com os princípios sociais e empresariais ou corporativos para o funcionamento da igreja:

A prioridade é da proclamação bíblica, o funcionamento da igreja como igreja, não o funcionamento como uma corporação, empresa, ponto comercial, mas como corpo dinâmico, tendo cada membro capacitado para ajudar o corpo todo a funcionar como uma corporação dos servos de Cristo.19

 

Newton, então, sistematiza uma saudável distinção sobre o funcionamento do corpo de Cristo, dizendo que a própria igreja, por sua vez, sabe discernir os elementos legítimos de crescimento a partir da observação da igreja nas Escrituras. Essa reação de Newton ao pragmatismo (ciências sociais) é ferrenha a ponto de afirmar que é impossível coadunar a soberania do Espírito Santo e a utilização de métodos e estratégicas das ciências sociais como ferramentas para tornar o evangelho compreensível às pessoas e como instrumento para o plantio de novas igrejas.

 

Cremos que é possível admitir uma caminhada de estudo e observação, porém com fundamentação bíblico-teológica, como a apresentada por Newton, cuidando em não excluir a utilização dos meios disponibilizados pelo Espírito Santo para a edificação da igreja.

 

3. A RELEVÂNCIA MISSIONÁRIA A PARTIR DA EXCELÊNCIA TEOLÓGICA

 

O conceito de plantação de igrejas está relacionado com o conceito da natureza da igreja e da obra redentora de Cristo. De forma geral, é possível afirmar que plantação de igrejas é a multiplicação de igrejas locais, no cumprimento da Grande Comissão. Nos escritos de Keller, o movimento de plantação de igrejas é uma expressão com significado singular, pois, ao se referir à plantação de igrejas como movimento, ele não pensa prioritariamente no processo, mas nos fins, especialmente quando olha menos para os resultados imediatos e mais para aqueles a serem alcançados ao longo dos anos. Keller descreve o plantio de novas igrejas como uma ação que leva a um movimento gerador de transformação de pessoas e de cidades. A nosso ver, a matriz reformada de Keller é relevante para a sua prática missionária, levando-o a anexar elementos das ciências sociais não como princípios, mas como ferramentas para o desenvolvimento de sua teologia de plantação de igrejas.

 

Para Keller, a plantação de uma nova igreja é um processo no qual existem estágios a serem desenvolvidos por plantadores e membros, buscando assumir uma mesma visão quanto à igreja a ser plantada. Seguem, então, aprendendo e planejando a partir do conhecimento da comunidade a ser alcançada, e observando o modelo de igreja a ser adotado para aquela comunidade. Nesta perspectiva nasce a nova igreja para a cidade, pretendendo, desde o inicio, utilizar todo o potencial de sua liderança, visando aplicar o evangelho naqueles que são recebidos com o fulcro final de aplicar o evangelho à cultura, contemplando assim mudanças espirituais, sociais e culturais na cidade.20

 

Keller considera, ainda, que a nova igreja nasce a partir da visão do principal plantador, a qual é compartilhada com o grupo central (grupo básico ou core group). A partir da visão compartilhada – não apenas pelo plantador, mas pelo plantador e o core group – é que se mobilizarão moradores de uma dada área. A nova igreja é, então, moldada e multiplicada (reproduzida) a partir da visão do grupo em dois movimentos: do plantador ao grupo e do grupo ao plantador. Dessa interação nasce a perspectiva para uma definição do grupo que se torna o alvo de evangelização da nova igreja.21

 

A capacitação ou discipulado na nova igreja mobilizará os seus membros e os moradores de uma cidade, alcançando as suas redes de relacionamentos para que possa com o tempo transformar toda a cidade. Essa foi a visão inicial da Igreja Presbiteriana do Redentor, em Nova York.22

 

Outro aspecto desenvolvido por Keller é o da contextualização de igrejas que estão sendo plantadas, defendendo que uma igreja, ao ser plantada, não poderá abrir mão de sua historicidade e de suas raízes. Todavia, deverá ser, ao mesmo tempo, relevante para as pessoas que vivem no lugar em que a igreja nasce. Nesse sentido, a pregação das Escrituras deverá ocorrer de modo inteligente, sendo o pregador alguém que transmita as Escrituras com autoridade, piedade e intelectualidade, de acordo com o grupo que estará alcançando.23 A evangelização deverá acontecer dentro do contexto de redes pessoais de amizade, de forma saturada. Aos crentes dever-se-á, constantemente, reiterar a necessidade de transmitir o evangelho aos seus amigos. Mais ainda, afirma Keller, a igreja deverá rejeitar uma visão negativa da cidade, assumindo, antes, uma postura positiva. Dever-se-á partir da premissa de que a visão dos crentes a respeito da cidade influenciará o julgamento da importância dela para a vida da igreja, principalmente em relação aos crentes que ali residem.24 Por fim, Keller elabora sobre a informalidade que deverá nortear os ministérios da igreja no atendimento das pessoas ao focalizar as suas necessidades espirituais.25 Keller, aparentemente, cria um conflito entre historicidade e raízes versus contextualização e contemporaneidade da nova igreja para alcançar relevância. Essa crise, no entanto, parece ser um mecanismo importante para o estabelecimento da filosofia de ministério ou essência ministerial da nova igreja. Por mais que reconheçamos a logicidade e coerência estratégica dessa posição, Keller não apresenta fundamentação bíblica.

 

Ele delimita a crise da historicidade versus contextualização, sintetizando os elementos principais para uma melhor visualização do crescimento da igreja: (1) o conhecimento do evangelho de forma profunda, sem desvios para o legalismo judaizante ou para o liberalismo teológico, de modo a compreender o poder transformador do evangelho sobre as vidas; (2) um consequente conhecimento profundo da cultura, sem adaptações culturais extremas, mas buscando na contextualização a geração de uma transformação da cultura pelo poder do evangelho; (3) por fim, o conhecimento e o amor pela cidade. Enquanto o conhecimento do evangelho e da cultura apontam uma transformação nas pessoas que recebem o plantador, o conhecimento da cidade produz humildade e mudanças radicais na vida do plantador.26

 

Neste sentido, Driscoll contribui de modo relevante quando afirma que todas as igrejas em todos os tempos estiveram contextualizadas a uma época específica. Segundo ele, algumas se contextualizaram à sua própria época ou a um período remoto da história, outras foram dinâmicas. A resistência de contextualização à sua própria época minimiza o foco missionário de uma igreja e lhe causa a perda de relevância para as gerações seguintes.27

 

Esses princípios estão interligados de forma intrínseca à doutrina da suficiência das Escrituras, a todo o processo de conhecimento do evangelho. O conhecimento da cultura, a contextualização e a pesquisa da cidade devem ser colocados debaixo da autoridade normativa e final das Escrituras Sagradas. Keller expressa essa mesma realidade, chamando-a de convicção imutável. A identificação de princípios bíblicos e de sua aplicação em uma situação de mudança é a forma mais apropriada para realizar a plantação de uma igreja.28

 

Keller apõe as razões para iniciar um movimento de plantio de novas igrejas e as sistematiza em quatro pontos.

 

O primeiro está no fato de que novas igrejas fazem o trabalho de discipulado e integração, o que não acontece com outros métodos de evangelismo. Sobre isto, ele escreve:

Muitas (a maioria?) das decisões não são realmente conversões, mas frequentemente o início de uma jornada de busca de Deus. Somente uma pessoa que está sendo evangelizada no contexto de continuada adoração e pastoreio poderá estar certa de finalmente vir a ter uma fé vital e salvadora.29

 

A partir dessa base, Keller firma sua teologia para o plantio de novas igrejas vinculando o discipulado no evangelho com o plantio de igrejas. Essa visão é compartilhada por Malphrus, que considera o plantio de novas igrejas como o atendimento mais coerente e próximo da Grande Comissão. Ele observa que é dentro de uma nova igreja que o batismo é ministrado, que a igreja recém-plantada exerce influência sobre novas pessoas e novas gerações e, ainda, que mudanças internas podem acontecer em favor e a partir dos novos crentes.30 Ambos, para fundamentar essa argumentação, utilizam o exemplo do apóstolo Paulo, plantando igrejas no Império Romano e produzindo uma grande transformação no império nas décadas seguintes.31

 

O segundo ponto reside na possibilidade que novas igrejas têm de alcançar novas gerações, novos moradores e novos grupos de pessoas. Assim, Keller argumenta que deverão acontecer mudanças culturais internas na nova igreja a fim de atingir de maneira relevante os novos alcançados. Ele menciona que as sensibilidades das pessoas de gerações passadas não produzem efeitos sobre as novas gerações. Argumenta, ainda, que as tradições deverão ser revistas em prol do alcance de novas pessoas. Dentre as tradições, Keller cita algumas: período de louvor, duração da pregação, reações emocionais, modelo de pregação, estilo de liderança e outros costumes que não fazem sentido para as pessoas de gerações mais recentes. Seu último argumento é sobre a capacidade que novas igrejas têm para alcançar pessoas sem igrejas.

 

Sequencialmente, Keller argumenta que igrejas antigas gastam energias e recursos excessivos com questões que alimentam os membros antigos, mas não nutrem pessoas novas. Reagindo a isso, muitas pessoas estão deixando as igrejas. Keller, então, escreve:

… muitas novas igrejas, por necessidade, são forçadas a focalizar muito mais suas energias nas necessidades de pessoas que não são membros, e dessa maneira se tornam mais sensíveis para com os não crentes. Existe também um fator cumulativo. Nos primeiros dois anos de nossa caminhada cristã, temos relacionamentos muito mais próximos de não cristãos do que posteriormente… Novos crentes produzem novos crentes.32

 

Neste sentido, Keller estabelece um vínculo pertinente com a realidade europeia e americana, e também com abrasileira: o crescimento assustador do número dos chamados “sem igreja” (unchurched). É claro que o trabalho de plantio de igrejas que objetiva pessoas que já possuem a fé cristã, mas estão sem prática de vida devocional e congregacional, traz particularidades que merecem observação e delineamento e, talvez, um outro artigo. Isso envolve aspectos diferentes de preparação e capacitação do plantador, formatação do grupo básico e amadurecimento da filosofia ministerial da nova igreja para que haja discipulado.

 

Keller ainda aponta, em suas razões, um quarto aspecto. A filosofia de plantio de novas igrejas com “uma face externa” – expressão utilizada para a nova igreja com a face voltada para fora – retira a possibilidade de um modelo rígido para novas igrejas. Keller propõe que a nova igreja deva nascer com um foco no não crente, ou no novo crente. O atendimento prioritário das expectativas dos novos convertidos deverá fazer parte da essência da comunidade que surge e, assim, os elementos formais da nova igreja atenderão ao novo rebanho.

 

Parece que Keller prefere um pluralismo de modelos que sirva às mais diversas classes ou grupos a serem alcançados. Dentro dessa perspectiva, é possível admitir a pluralidade eclesiástica em alguns fundamentos teológicos e na expressão teológica cúltica que é a liturgia. Keller admite o uso da liturgia inclusivista,33 na qual crentes e não crentes podem participar. Indica também que o ministério da nova igreja deve ser voltado para as necessidades sociais da comunidade em que está inserida e, de forma holística, prever uma igreja contextualizada, tornando-a uma comunidade multiétnica e multicultural.34

 

Keller transita numa linha eclesiológica com algumas tendências visíveis para o pragmatismo e, dessa maneira, aproxima-se de C. Peter Wagner,35 no sentido de que parece dogmatizar o plantio de igrejas como sendo a única maneira verdadeira de criar cristãos permanentes. Não podemos, porém, visualizar um pragmatismo puro; existem fortes influências reformadas de Harvie Conn36 e Roger Greenway.37 Outros pontos em que poderemos divergir estarão nos detalhes para análise dos plantadores de igrejas calcados não nas habilidades e dons espirituais, mas a partir de mecanismos de seleção das ciências sócias.

 

A visão de Keller em relação à transformação de uma cidade por meio do plantio de novas igrejas parece-nos, no mínimo, revolucionária. Observamos que o seu campo de testes é o ministério da Igreja Presbiteriana do Redentor, e neste sentido ele tem alcançado êxito.

 

Outro fator a ser observado no modelo de Keller é a sua independência ministerial para o plantio de igreja. Ele defende uma estrutura conciliar denominacional mais simplificada e um maior raio para a decisão pastoral. A grande diferença entre o modelo de Keller e outros modelos está no objetivo final. Keller deseja que o seu modelo se torne um movimento, uma reprodução do DNA de sua igreja em vários lugares de Nova York, dos Estados Unidos e do mundo. Isto possibilita o avanço do movimento, o que não acontece com outras comunidades que importaram o seu modelo e, contudo, não contextualizam a sua visão de criação de um movimento.

 

4. OS DESAFIOS CONCEITUAIS PARA O PLANTIO DE NOVAS IGREJAS

 

As convicções quanto à questão do plantio de igrejas estão relacionadas com a resposta que uma igreja local forneça à Grande Comissão e aos fundamentos teóricos que foram utilizados para o desenvolvimento dessa reação em sua caminhada histórica. Malphurs diz:

Plantar igrejas é uma aventura de fé exaustiva, porém estimulante, que envolve o planejamento do processo de iniciar e desenvolver novas igrejas, com base nas promessas de Jesus e em obediência à Grande Comissão.38

 

Parece-nos que o Dr. Malphurs, bem mais do que Keller e outros autores citados neste artigo, transita dentro de princípios bíblicos. Entretanto, ao estabelecer academicamente uma diferenciação entre o trabalho pastoral e o trabalho do plantador de igrejas, ele pressupõe que pastores sejam mantenedores de igrejas já existentes, enquanto que plantadores de igrejas seriam iniciadores de novas igrejas. Isto impulsiona o trabalho do plantador, mas inibe o trabalho pastoral para o evangelismo de não crentes. Insere o plantador dentro de uma visão de construção de redes de relacionamentos pessoais como sendo o trabalho principal, e acentua que, devido às dificuldades do inicio de uma nova igreja, deveria haver maior compreensão com os plantadores que estão no contexto inicial do plantio de uma nova igreja. Esse assunto, mesmo sendo um tópico aparentemente novo na literatura reformada, produz focos de resistência. A despeito disso, um expressivo segmento da igreja reformada quer plantar novas igrejas.

 

A resistência a um posicionamento tão significativo começa com a desvinculação do trabalho pastoral da evangelização ativa entre os não crentes, fazendo do pastor um mantenedor de crentes dentro de uma estrutura que poderá fechar as portas, ao longo dos anos, por causa de ausência da vitalidade do evangelho na caminhada diária dos crentes.

 

De maneira tênue, mas na direção correta, Hesselgrave aponta um diferencial estratégico e bíblico.39 Ele compreende a urgência, relevância e especificidade do plantio de novas igrejas e atribui a todos os crentes o exercício da Grande Comissão em ações individuais ou corporativas, a fim de propor um ciclo de vitalidade para uma igreja local. Ele assim define:

A missão primária da igreja e, portanto, de todas as igrejas locais, é a proclamação do evangelho de Cristo e a reunião dos crentes em comunidades locais em que eles podem ser edificados na fé e exercer o serviço cristão. Existem novas congregações para serem plantadas ao redor do mundo. Naturalmente, há muitos outros fatores importantes na carreira cristã que os cristãos podem executar individual e corporativamente.40

 

Conceitualmente, encontramos em Hesselgrave um ponto de equilíbrio para a teologia da plantação de igrejas. Ele sintetiza o processo de plantio de novas igrejas chamando-o de ciclo paulino, pois tem como fundo o trabalho do apóstolo Paulo. Ele fundamenta essa estratégia a partir da comparação das teorias de Michael Green, Donald McGavran e J. Herbert Kane.41

 

Com tal base teórica, Hesselgrave formata seu pensamento, propondo o ciclo paulino de:

1) missionários enviados,
2) audiência contatada
3) evangelho comunicado
4) ouvintes convertidos
5) crentes congregados
6) fé confirmada
7) liderança consagrada
8) crentes fortalecidos
9) relacionamentos continuados e, por fim
10) a igreja enviando. Nesse processo, igrejas novas nascem em diversas direções e culturas.

 

Lidório fornece uma conceituação de plantação de igrejas que pode ser observada de forma bíblica e didática, tanto pela extensão quanto pela profundidade do assunto. Em contraste com outros autores, o nascimento e o amadurecimento da uma nova comunidade torna-se o principal instrumento para a comunicação do evangelho:

O plantio de igrejas é a forma mais eficiente, autossustentável e duradoura de comunicar o evangelho dentro de um perímetro local, seja um bairro em contexto urbano, seja uma etnia culturalmente definida, pois gera demanda pela comunicação de um evangelho culturalmente compreensível, estabelece localmente o reino e duplica o efeito missionário uma vez que igrejas plantam igrejas.42

 

Para Stetzer, o objetivo do plantio de novas igrejas é estabelecer igrejas missionárias plantadas dentro de uma cultura que busquem atingir pessoas dentro das próprias culturas.43 Assim, ele admite o plantio de igrejas em comunidades emergentes, em culturas diferentes e separadas, mas também igrejas que agregam combinações culturais diversas.

 

A este envolvimento de plantio de novas igrejas em comunidades e culturas não convencionais ou emergentes, Stetzer extrapola o conceito de Imerging Church e Emerging Church para Missional Churches ou igrejas missionais. O termo significa, na sua concepção, a postura favorável para com as pessoas que vivem em lugares e culturas não convencionais. O plantio de igrejas entre essas pessoas visa construir relacionamentos sinceros e seguros, sendo esse o caminho para atingi-las com o evangelho dentro de sua cultura.44 Outra ênfase de Stetzer é sobre os relacionamentos dentro da igreja, a que ele chama de missão encarnacional. Para ele, boas igrejas dependem de bons relacionamentos. Além dos relacionamentos concretos, ele aborda a necessidade de uma teologia sólida que seja relevante para a cultura, sem, contudo, colidir com o poder da mensagem do evangelho. O sucesso de uma igreja plantada está na sua vida espiritual.45

 

CONCLUSÕES

 

O plantio de igrejas, ou o processo para iniciar novas comunidades de convertidos ao evangelho de Jesus, existe na igreja desde o tempo dos apóstolos. As ferramentas disponíveis para o desenvolvimento desse processo sempre estiveram à disposição dos crentes, sendo, em alguns momentos, diferentes e estranhas. Contudo, os instrumentos que genuinamente não comprometeram a caminhada da igreja quando ao conteúdo do evangelho foram utilizados e devem ainda hoje ser usados como bênçãos para a expansão da igreja.

 

Os modelos de plantio, recrutamento, seleção e envio de plantadores estão primeiramente ligados à eclesiologia da igreja mãe. O modelo da igreja plantada está relacionado internamente com a visão da igreja e depois com a missão da igreja. Isso se reflete externamente, pois a missão é um desenvolvimento da visão. Toda missão eclesiologicamente equivocada produzirá resultados teologicamente questionáveis e diretamente diferentes.

 

As tentações do pragmatismo cirandam a igreja, sobretudo a nossa, em tempos de pós-modernidade. Uma igreja plantada sob a ótica dos resultados numéricos não obterá resultados espirituais. A valoração espiritual visa à produção de números não pelas estratégias, mas pelo trabalho soberano do Espírito Santo. Não poderemos medir os resultados com base em modelos humanos, com foco nas ciências sociais ou com avaliações de relatórios. Todas essas ferramentas poderão ser úteis para apontar diagnósticos, mas jamais para apontar soluções. As soluções acontecerão devido à manifestação do Santo Espírito no meio da comunidade a ser evangelizada.

 

O início saudável de uma nova igreja poderá, por um lado, frutificar do trabalho inaugural do plantador, formando, um a um, o grupo básico (core group), à medida que o Espírito Santo acrescenta os salvos que respondem à semeadura do evangelho. Por outro lado, poderá também surgir como fruto de um transplante de membros saudáveis de uma igreja missionária, discipulados na visão da nova igreja no decorrer dos meses e dos anos em que experimenta uma reforma na sua caminhada com Deus, gerando sempre uma volta à Escritura – que, por sua vez, impulsiona o movimento missionário.

 

ABSTRACT

 

This article strives to approach the theme of planting new churches through the clear light of biblical Reformed roots. It is premised on the idea that the planting of new churches, done by Christian missionaries, should be carried out in a similar pattern to the work carried out by the apostles in the establishing of New Testament local churches. Their process of action is described in the Lord’s Great Commission, with a method of seeding the Gospel that involves the participation of all believers in the planting of new churches. The article proposes, therefore, a theological direction for church planting. Beginning with an exploration of Scripture, specifically Paul’s incursions, it analyzes some contemporary approaches to church planting, through the pertinent literature. The connections between the Church Planting Movement and the older Church Growth Movement are considered, especially in terms of the focus on statistical and numerical returns. Next, it goes on to reflect about some of the important names within Reformed circles that have reflected on the subject, with special attention to their influence, basic concepts and methodologies. Finally it considers the movement by taking a closer look at one of its major representatives today, Timothy Keller, continuing, through this reflection, to look for positive and negative contributions in the concepts and models presented.

 

KEYWORDS

 

Church planting; Church planters; Timothy Keller; Church growth.

Jedeías de Almeida Duarte  é bacharel em Teologia (1984) e Direito (2006); mestre em Missiologia pelo Centro Evangélico de Missões (2007) e Doutor em Ministério (D.Min., 2009) pelo CPAJ e Reformed Theological Seminary. Fez estudos avançados sobre plantação de igrejas no Global Church Advancement, em Orlando, Flórida. É professor de Teologia Pastoral e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Revitalização e Multiplicação de Igrejas do CPAJ. É o executivo do Plano Missionário Cooperativo da Igreja Presbiteriana do Brasil e pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana de Pinheiros.

1 Um exemplo desta prática é a da contextualização acrítica feita pela Igreja Romana no Brasil visando a conversão de índios, inserindo no culto romano elementos das práticas religiosas indígenas, fato que também ocorreu posteriormente com a empreitada da conversão dos africanos que foram escravos, gerando um sincretismo religioso.
2 NEVIUS, John L. The planting and development of missionary churchesPhiladephia: Monadnock Press, 2003.
3 Expressão utilizada por Timothy Keller para se referir ao modelo e às convicções de uma igreja local em: KELLER, Timothy e THOMPSON, Allen. Manual do plantador de igrejas. Londrina: CBPI, 2002.
4 WAGNER, Peter C. Plantar igrejas para a grande colheita. São Paulo: Abba Press, 1993, p. 13.
5 WAGNER, Peter C. Estratégias para o crescimento da igreja. São Paulo: Editora Sepal, 1991. p. 27-40.
6 WAGNER, Plantar igrejas para a grande colheita, p. 22.
7 WAGNER, Estratégias para o crescimento da igreja, p. 165.
8 Ibid., p. 182
9 Ibid.
10 As Escrituras trazem a verdadeira reflexão sobre a natureza da igreja (Ef 2.13). Os plantadores de igrejas jamais deveriam desenvolver a estrutura organizacional de seus projetos para, em uma primeira etapa, realizarem uma análise cultural ou para determinarem aos pesquisadores o que deveriam sentir através da pesquisa em termos das necessidades da igreja no futuro, estudando as várias igrejas em crescimento. Esses estudos podem ser benéficos, mas sem uma eclesiologia bíblica profunda, as perguntas e os entendimentos das pesquisas serão superficiais. MCINTOSH, Gary L. (Org). Evaluating the church growth movement. Grand Rapids: Zondervan, 2004, p. 23.
11 MURRAY, Stuart. Church planting. Scottsdale: Herald Press, 2001, p. 37.
12 Ibid., p. 41 e 42. O fato histórico da encarnação é a inspiração para os plantadores de igrejas que são introduzidos em culturas e povos diferentes para transmitir o evangelho, trazendo o Reino de Deus na pessoa de Jesus Cristo. A igreja local é a comunidade na qual conhecemos visivelmente o Reino em atividade, que é estendido a partir dela a toda a criação.
13 MURRAY, Church planting, p. 39.
14 Ibid., p. 53.
15 Ibid., p. 54.
16 Ibid., p. 59.
17 NEWTON, Phil. O pastor e o crescimento da igreja. Em: ARMSTRONG, John (Org). O ministério pastoral segundo a Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 278.
18 Ibid., p. 286.
19 Ibid., p. 288.
20 KELLER e THOMPSON, Manual do plantador de igrejas, p. 20 e 21.
21 Ibid., p. 1-6.
22 Ibid., p. 8.
23 Ibid., p. 9.
24 Ibid.
25 Ibid.
26 Ibid., p. 20.
27 DRISCOLL, Mark. Contextualizando o evangelho. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=o448vY42JDs&feature=related. Acesso em: 15 mar. 2011.
28 KELLER e THOMPSON, Manual do plantador de igrejas, p. 20 e 21.
29 Ibid., p. 29.
30 MALPHURS, Aubrey. Planting growing churches. Grand Rapids: Baker Books, 2004, p. 25-26.
31 KELLER e THOMPSON, Manual do plantador de igrejas, p. 29.
32 Ibid., p. 30.
33 Ibid., p. 61.
34 Ibid.
35 KELLER e THOMPSON, Manual do plantador de igrejas, III (introdução).
36 Ibid., p. 66.
37 Ibid.
38 MALPHURS, Planting growing churches, p. 19.
39 HESSELGRAVE. David. J. Planting churches cross-culturally. Grand Rapids: Baker Academic, 2006, p. 17.
40 Ibid., p. 17.
41 Ibid, p. 42-46. Para Hesselgrave, o primeiro (Green) afirmava que Paulo não possuía uma estratégia, o segundo (McGavran) atestava que a estratégia paulina sediava-se em Antioquia e dali ganharia boa parte do Mediterrâneo; contudo, o terceiro (Kane) declarou que Paulo não possuía uma estratégia no sentido absoluto, mas um modus operandi, e nele era guiado pelo Espírito Santo. Entendia assim que o objetivo das Escrituras não era estratégia.
42 LIDÓRIO. Ronaldo. Plantado igrejas. São Paulo: Cultura Cristã, 200, p. 58.
43 STETZER, ED. Planting missional churches. Nashville: B. & H. Publishing Group, 2006, p. 1.
44 Ibid.
45 Ibid., p. 3-5.