O Episódio da rainha de Sabá numa perspectiva missiológica

Daniel Santos Jr.

08 May 2019

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O Episódio da rainha de Sabá numa perspectiva missiológica

Respondendo à Rainha de Sabá:

Uma Investigação sobre a Natureza da Linguagem Sapiencial do Antigo Testamento

A história da rainha de Sabá é apresentada no Primeiro Livro de Reis no contexto de dezenas de outros sábios estrangeiros, reis e monarcas que vieram a Jerusalém para investigar mais de perto a fama de Salomão (1Rs 4.29-30). Ao fazer isso, o autor do livro atribui uma ênfase desigual e intencional à visita desta rainha. Ela é retratada na narrativa bíblica não como mais um dos visitantes ou uma das centenas de mulheres que contribuíram para a perversão do coração do rei, mas como uma rainha, uma sábia, uma admiradora e crítica daquilo que tinha ouvido a respeito do rei de Jerusalém. O que justifica este tratamento especial da delegação real1 do reino de Sabá? Será que o autor do livro de Reis escolheu a rainha de Sabá como uma amostra representativa do tipo de pessoas que se interessavam pela sabedoria de Salomão?

      O motivo declarado para a visita da rainha era testar Salomão com perguntas difíceis (cf. 1Rs 10.2). House afirma que este tipo de teste era considerado uma prática comum nas visitas diplomáticas.2 Há inúmeras questões que poderiam ser levantadas com base na sua motivação. Por exemplo, será que deveríamos entender que esta personagem era na verdade uma pessoa que representava algum tipo de comunidade ou sociedade de credenciamento, buscando discernir o que realmente estava por trás da fama do rei de Jerusalém? Gillmayr-Bucher propõe que.

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… neste encontro ele [Salomão] tem que competir com a rainha e tem que provar que é alguém do nível dela. No contexto da vida de Salomão isto é uma coisa nova. A imagem predominante que mostra Salomão como o maior de todos os reis é abandonada a fim de que seja confirmada mais uma vez.3

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     Nelson chega ao ponto de dizer que esta visita deve ser vista como “um comercial mundano da fama de Salomão”.4 Assim sendo, a questão da motivação acaba levantando questões adicionais sobre a identidade desta visitante ilustre: Quem realmente era a rainha de Sabá? Por que ela teria se interessado em vir e testar Salomão com perguntas difíceis? Por que razão ela teria escolhido a utilização de enigmas para testar a fama de Salomão com respeito ao nome do Senhor? Há diversas abordagens a tal evento e este estudo se propõe a ouvi-las à luz daquilo que a narrativa bíblica realmente afirma.5

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     O ponto de vista adotado pelo autor do livro de Reis torna esse evento ainda mais misterioso: por que a narrativa que descreve a visita dessa rainha não permite em nenhum momento que as palavras de Salomão sejam ouvidas? Nem mesmo no grande momento em que o rei foi interpelado pela rainha o autor permite que o leitor tenha acesso direto às palavras do rei. O teor do debate que provavelmente se tornou a notícia do ano foi ironicamente ignorado. O que encontramos na narrativa que descreve a visita é na verdade um diálogo entre a voz do narrador e a voz da rainha de Sabá; é por meio das palavras dela que o autor de Reis quer que acessemos os detalhes de tudo o que transcorreu naquela ocasião. Desta forma, o ponto de vista adotado pelo autor parece apresentar a rainha como alguém inicialmente movida por um espírito crítico, mas que foi de alguma forma convencida por aquilo que ouviu. Apenas uma informação vazou daquele encontro: Salomão respondeu a todas as suas perguntas sem maiores dificuldades (cf. 1Rs 10.3).

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     A história da visita da rainha de Sabá termina com um inesperado desvendamento daquilo que estava passando por sua mente enquanto ela testava a fama de Salomão. Quando começamos a “ouvir” seus pensamentos enquanto ela via o que estava acontecendo no palácio, o leitor fica sabendo que essa visitante estava muito bem informada a respeito do que esperava encontrar em Jerusalém. Por exemplo, ela veio a Jerusalém por causa da fama de Salomão com respeito ao nome do Senhor (1Rs 10.1), e não por sua fama em geral. Em segundo lugar, ela menciona o fato de Deus ter se agradado de Salomão, provavelmente uma referência ao episódio em Gibeá (cf. 1Rs 3.1-15), quando o Senhor atendeu o seu pedido de sabedoria. Além disso, ela sabia que o motivo que levou o Deus de Salomão a fazer isso foi o seu amor e o seu intento de usar o rei para executar juízo e justiça (cf. 1Rs 10.9). Mesmo assim, sabendo todas essas coisas, sabendo o que ela poderia encontrar ao chegar a Jerusalém, a narrativa nos surpreende mais uma vez dizendo que a rainha ficou maravilhada com o que viu (literalmente, “sem respiração”). Estas considerações levantam questões pertinentes: O que exatamente causou esta reação inesperada na rainha de Sabá? Teria sido aquilo que ela ouviu de Salomão ou aquilo que ela viu enquanto esteve em seu palácio? A investigação levada a efeito neste artigo visa demonstrar que há algo peculiar na natureza da linguagem sapiencial, peculiaridade esta muito bem ilustrada neste encontro entre Salomão e a rainha de Sabá.

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     Essa demonstração acontecerá como resposta a três perguntas: 1) Como a fama de Salomão chegou aos ouvidos da rainha sem deixar que o fator-Senhor fosse engolido pelo fator-Salomão? 2) O que exatamente na linguagem de Salomão atraiu e desafiou uma pessoa como a rainha de Sabá quando ouvia os relatos sobre ele? 3) O que exatamente levou aquela rainha a uma nova postura em relação à fama de Salomão?

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COMO A FAMA DE SALOMÃO CHEGOU ATÉ A RAINHA?

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     O modo como esta fama de Salomão chegou até aos ouvidos da rainha é o principal elemento que distingue o relato bíblico das fontes extrabíblicas que relatam esse episódio. As referências talmúdicas à rainha de Sabá estão concentradas no segundo Targum de Ester,6 um comentário em aramaico do livro de Ester (ca. 500 d.C.), segundo o qual um pássaro convocou a rainha de Sabá, compelindo-a a viajar. Ao chegar e entrar nos aposentos de Salomão, ela acha que o piso polido do recinto seja uma fina camada de água. Ela levanta seu vestido para não ser encharcado na travessia, revelando assim suas pernas não depiladas. Salomão comenta que, a despeito de sua beleza, os pelos de suas pernas são uma vergonha. Pernas cabeludas são apropriadas apenas para os homens, diz ele. Ela ignora sua observação e passa a testá-lo com uma série de enigmas, os quais Salomão respondeu com relativa facilidade. Bellis comenta que “esta versão da história está relacionada a uma tradição que entende a rainha de Sabá como uma imagem sedutora demoníaca, como Lilith, já que os pelos estavam associados a demônios”.7 Ben Sira, recontando a história, acrescenta que.

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Salomão, desejando deitar-se com ela, mas não gostando do pelo nas suas pernas, enviou vários depiladores que resolveram o problema. Então, eles dormiram juntos e daquela união nasceu Nabucodonosor, que em 587 a.C. tomou Jerusalém e destruiu o templo.8

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     Na Etiópia, a história de Salomão e a rainha de Sabá, que é chamada Makeda, ocupa um lugar central na saga nacional intitulada “A glória dos reis”.9 Segundo o relato, Tamrin, chefe das caravanas comerciais de Makeda, retorna de Jerusalém após ter fornecido matéria prima para Salomão construir o templo e conta a Makeda a respeito da sabedoria, poder e riquezas de Salomão. Em resposta, ela decide ver pessoalmente o que lhe havia sido relatado e parte para Jerusalém com grande comitiva carregada de presentes. Ao chegar, ela confirma o relato de Tamrin e se maravilha diante da sabedoria e justiça de Salomão. Segundo o relato, Makeda agradeceu ao rei com as seguintes palavras:

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Louvado sejas, meu senhor, por tal sabedoria e entendimento lhe ter sido outorgado. Eu mesmo desejaria apenas ser uma das menores de tuas servas para que pudesse lavar os teus pés, contemplar a tua sabedoria, assimilar teu entendimento, servir tua majestade e desfrutar de tua sabedoria. Oh, quão grande prazer tuas respostas me deram, a doçura da tua voz, a beleza da tua saída, e a maneira graciosa e prestativa em responder. A doçura de tua voz faz o coração se alegrar, faz os ossos se fortalecerem, dá coragem ao coração, boa disposição e graça aos lábios. Olho para ti e vejo que a tua sabedoria é imensurável e teu entendimento inesgotável, é como uma lâmpada acesa em meio às trevas. Dou graças àquele que me trouxe até aqui, me fez vê-lo, me fez pisar no limiar dos teus portões e me fez ouvir a tua voz.10

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     De acordo com esta narrativa da Etiópia, a rainha conversou com ele diariamente e decidiu abandonar sua adoração pagã do sol, da lua e das estrelas e, ao invés disto, adorar o Deus de Israel. No momento da despedida, Salomão ficou de igual modo tão impressionado com a sua beleza e inteligência que desejou ter um filho com ela. Ele a convidou para um grande banquete repleto de temperos fortes e, após serem encerradas as comemorações, convidou-a para dormir em seus aposentos. Ela concordou sob a condição de não ser forçada. Ele aceitou sob a condição de que ela não apanhasse nada que lhe pertencesse. Ela concordou e ambos dormiram em lados opostos da mesma cama. Contudo, devido ao efeito dos temperos, ela se levantou durante a noite e bebeu água de um cântaro, o que, segundo Salomão, significou uma quebra do acordo. Eles então consumam o ato e da união nasceu Menelik I. A rainha Makeda retornou para a Etiópia grávida de Menelik e com um anel do rei. Ao crescer, o menino quis saber quem era o seu pai e, após ter sido informado, viajou para Jerusalém com o anel real que sua mãe lhe dera. Ao chegar a Jerusalém, todos se maravilhavam da semelhança do menino com o pai. Menelik estudou as leis e as instituições de Israel e finalmente decidiu retornar para casa. Salomão convocou seus anciãos e ordenou que eles enviassem seus primogênitos juntamente com Menelik para iniciar uma nova colônia na Etiópia. Antes de sair, eles tomaram a arca da aliança com eles. Quando chegaram à Etiópia, Makeda abdicou do trono em favor do seu filho. Daquele tempo em diante, os cidadãos da Etiópia adoraram o Deus dos hebreus.11

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     Dois pontos são relevantes para nossa investigação: a) a rainha foi vista e descrita como alguém que não compartilhava da mesma cosmovisão religiosa de Salomão, b) ela tinha perguntas e enigmas com os quais pretendia testar a sabedoria de Salomão e c) ela trouxe grande quantidade de presentes para a visita, o que comprova a riqueza da região de Sabá naqueles dias.

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     De acordo com Josefo, que identifica essa personagem como rainha do Egito e da Etiópia, além de informar que seu nome era Nicolis, afirma que

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ela era uma excelente princesa [e], tendo ouvido falar das virtudes e da sabedoria de Salomão, desejou ver com os próprios olhos se a fama dele era verdadeira ou se era somente um daqueles boatos que se dissipam quando conhecidos e estudados a fundo.12

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     A expressão “excelente princesa” é na verdade a tradução de gunai/ka sofi,a|, o que revela maiores detalhes sobre a natureza dessa excelência, a saber, uma mulher dada à sabedoria. Algumas traduções de Josefo em inglês trazem “she was inquisitive into philosophy” (ela era inquiridora em filosofia).13 A Bíblia Hebraica (1Rs 10.1) não entra nesse detalhe, mas afirma que ela era alguém capaz e interessada em apresentar diante de Salomão enigmas (hdyx, hîdâ) com os quais pudesse aferir a fama de sua sabedoria. Não está claro no texto bíblico se a rainha tinha dúvidas a respeito de algum provérbio ou pensamento de Salomão ou se buscava apenas testá-lo por meio dos enigmas. De qualquer forma, nosso interesse neste ponto tem a ver apenas com a identidade dessa personagem. Estas informações levantadas apenas apontam para uma pessoa interessada em filosofia e outras áreas do conhecimento e que se viu no dever ou no direito de testar a popularidade do rei de Jerusalém.

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     De que maneira a identidade da personagem pode auxiliar nossa investigação quanto à natureza do encontro? A relação entre sua verdadeira identidade e a natureza de sua visita é fundamental para entendermos o desfecho da história. Se a rainha de Sabá fosse uma sábia renomada no mundo antigo, uma referência em questões relacionadas ao gênero sapiencial, então a natureza de sua visita assume um caráter mais de um teste de qualidade do que necessariamente um interesse pela sabedoria de Salomão per se. Por outro lado, se ela fosse alguém sábia, mas com um interesse específico de testar a sabedoria de Salomão com respeito ao Senhor, então a natureza de sua visita a Jerusalém assume um caráter mais de peregrinação do que de investigação. Peregrinação, digo, no sentido de ir em busca de algo mais concreto e profundo, o que a fama de Salomão corrente em seu país não era suficiente para lhe proporcionar.

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O QUE ATRAIU E DESAFIOU A RAINHA DE SABÁ?

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     A narrativa bíblica não nos fala qual foi o conteúdo das perguntas e, por essa razão, a única informação que temos vem do próprio narrador, que nos informa que Salomão foi aprovado no teste sem muita dificuldade. A grande maioria das fontes extrabíblicas são unânimes em relatar a maneira como a rainha ficou cativada pelo conhecimento e a sabedoria do rei de Jerusalém, ainda que o motivo inicial desse interesse varie grandemente nestes relatos, como vimos anteriormente.14

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     Conforme já foi referido acima, a rainha apresentou-se diante de Salomão com perguntas difíceis, mais especificamente com uma seleção de enigmas que teriam a capacidade de aferir in loco a natureza genuína da fama de Salomão. Se este for o caso, então podemos estabelecer que, pelo menos na mente dela, aqueles enigmas poderiam de alguma forma produzir um ambiente de debate que traria à luz algumas respostas que a fama de Salomão sozinha não respondia. Ainda que as fontes extrabíblicas apontem outras motivações para esta visita, a narrativa bíblica é específica e intencional ao definir o interesse dela na fama de Salomão “com respeito ao nome do Senhor” (1Rs 10.1). Este detalhe nos prepara para entender a visita da rainha como uma peregrinação em busca de respostas relacionadas ao nome do Senhor. É por causa deste tipo de detalhe que a presente pesquisa busca analisar este episódio sob o ponto de vista missiológico, já que a fama de Salomão com respeito ao nome do Senhor foi capaz de despertar o interesse em uma pessoa como a rainha de Sabá.15

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     Após chegar a Jerusalém, somos informados que ela “compareceu diante de Salomão e expos tudo quanto trazia em sua mente” (1Rs 10.2). A reação de Salomão é descrita em relação às perguntas apenas, afirmando que ele teve uma resposta para todas elas e “nada houve profundo demais que não pudesse explicar” (1Rs 10.3). Neste breve relato do que aconteceu no momento principal da visita, alguns detalhes importantes são mencionados. Primeiro, o fato de respostas terem sido dadas. Se olharmos apenas para aquilo que foi descrito acerca do que a rainha fez, a saber, expor o que estava em sua mente, não haveria necessidade de respostas. Todavia, o termo hebraico utilizado aqui para “responder” é naggad, que está mais próximo de “explicar, desvendar e resolver” do que simplesmente dar resposta a uma pergunta. A “exposição” da rainha, então, consistiu provavelmente em uma apresentação e, se aquilo que foi apresentado recebeu explicações ou foi desvendado, é provável que ela tenha apresentado suas questões em forma de enigmas. Uma evidência disto é o comentário adicional de que “não houve nada profundo demais (lit. não havia nada oculto para Salomão) que ele não pudesse resolver”. Desta observação adicional podemos extrair conclusões adicionais quanto à natureza das perguntas dessa rainha.

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     Se considerarmos, por exemplo, o tipo de perguntas que o Targum de Ester sugere que foram apresentadas a Salomão, tanto o interesse da rainha quanto a sabedoria dele assumem uma nova dimensão.

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Ela perguntou: “O que é uma coisa que vem como o pó da terra, se alimenta do pó, é despejada como água e cola na casa?” Ele respondeu: “É a nafta” [betume]. Ela perguntou ainda: “O que é que vai como uma tempestade na cabeça de todos, é a causa de louvor para o livre, de vergonha para o pobre, de honra para o morto, de desgraça para os vivos, de alegria para os pássaros, de sofrimento para o peixe?” Ele respondeu: “É o linho”. Então ela exclamou: “Eu não teria acreditado se não tivesse vindo aqui e visto com meus próprios olhos, e eis que não me contaram a metade, pois tua sabedoria e bondade sobrepujam o relato que tinha ouvido”.16

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     Observe neste exemplo que o tipo de enigma proposto pelo targum explora aspectos variados da vida, sociedade e cultura, sobre os quais Salomão não teria necessidade de manter-se informado. A resposta para este tipo de enigma envolve de igual modo um conhecimento vasto da maneira como culturas diferentes estruturam seu raciocínio e sua observação do mundo externo. A grande improbabilidade de esse exemplo ser realmente uma descrição precisa do que aconteceu entre Salomão e a rainha é a questão relacionada ao nome do Senhor. O que a rainha queria saber estava relacionado com a sua fama com respeito ao nome do Senhor.

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     É de suma importância que entendamos aquilo que este encontro pressupõe a respeito da natureza da sabedoria de Salomão. Mesmo sem saber ao certo o que ela ouvia da fama de Salomão com respeito ao nome do Senhor, sua decisão de vir até Jerusalém para testá-lo com enigmas releva algo importante. Algum tipo específico de informação acerca daquilo que Salomão sabia a respeito do Senhor chegou ao conhecimento da rainha e ela entende que a melhor maneira de testar essa informação é utilizar um diálogo fundamentado em enigmas. Não há necessidade de especularmos demasiadamente sobre a natureza desse teste, visto possuirmos bons exemplos no livro de Provérbios do que teria sido um diálogo baseado em enigmas.

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     O primeiro exemplo é encontrado no início do livro, quando uma compilação dos propósitos dos provérbios de Salomão inclui “para entender provérbios e parábolas, as palavras e enigmas (hîdâ) dos sábios” (Pv 1.6). Em outras palavras, um dos propósitos do livro era treinar o jovem para entender os enigmas dos sábios.17 Murphy acredita que lvm (mashal, “provérbio”) ainda seja um termo mais adequado para classificar o conteúdo do livro do que “enigma”, pelo simples fato de não encontrarmos no texto de Provérbios exemplos de tais enigmas.18 O segundo exemplo pode ser encontrado na segunda seção do livro de Provérbios (10.1-29.27) que, em grande parte, contém provérbios famosos pela simetria impecável observada nos paralelismos tanto antitéticos quanto sintéticos. A predominância deste nível de simetria e organização produz, por outro lado, uma sensibilidade para identificação de estruturas que aparentemente estão fora do padrão observado naquela seção. Essas variações têm sido abordadas como parte original da proposta do livro, as quais podem ter uma finalidade retórica. Fox, por exemplo, acredita que um efeito retórico pode ser alcançado quando quebramos a simetria impecável dos paralelismos que o leitor ou ouvinte dos provérbios estava acostumado a encontrar.19 Ele classifica esses tipos de estruturas como provérbios desarticulados, entendendo-os como uma ferramenta retórica intencionalmente agregada ao corpo geral de provérbios impecavelmente articulados. Eis um exemplo do que ele denomina provérbio desarticulado.

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     Os dois sujeitos “justo” e “perverso” são comumente contrastados no livro de Provérbios, mas não da maneira como eles acontecem neste caso. Os predicados nas linhas L1 e L2 parecem não ser congruentes. Se a mesma congruência tão comumente observada nos demais provérbios dessa seção fosse repetida aqui, L2 precisaria conter alguma informação que se relacionasse mais diretamente com o tema “ódio” apresentado em L1. Em outras palavras, não está tão claro para o leitor o princípio adotado para o contraste que este provérbio quer apresentar. Já que a conjunção utilizada para unir as duas linhas foi “mas”, evocando assim um contraste, precisamos entender como o autor do provérbio quer que entendamos que “odiar palavra de mentira” contrasta com “fazer vergonha e desonra”. Assim, se uma congruência perfeitamente articulada fosse o objetivo deste provérbio, L2 deveria conter algo do tipo “mas o perverso se deleita em espalhar mentiras”, ou “mas o perverso se compraz na mentira”. Como o provérbio não contém nenhuma destas sugestões em L2, Fox conclui que estamos lidando com um tipo de construção proverbial desarticulada.20

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     Se, de fato, estamos tratando de um caso de provérbio desarticulado, e se aceitarmos a proposta de que tal desarticulação tem uma função retórica, cabe-nos indagar a maneira como isso acontece. Como esta desarticulação produz um significado congruente com L1 e L2? Fox propõe ainda que esse tipo de desarticulação observada no Exemplo 1 segue um paradigma. “Paralelismos como estes produzem uma lacuna entre as linhas. Quando a lacuna for mentalmente preenchida, a estrutura volta a ser coesa e o link muito mais forte”.21 No caso em questão, Fox sugere que L1 requer do leitor o acréscimo daquilo que produzirá não apenas a congruência entre L1 e L2, mas especialmente a coerência entre L1 e L2. Afinal, não há nada essencialmente errado com a desarticulação ou incongruência no paralelismo, mas quando esta variação compromete a coerência do significado do provérbio, então estamos diante de um desafio intelectual de preencher a lacuna para compreender o texto. Sua sugestão é de que a lacuna em L1 precisa ser preenchida com “e conquistará honra”.

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     Sem dúvida, estamos falando aqui de um jogo hermenêutico altamente sofisticado que só pode acontecer quando os participantes conhecem e compartilham de uma mesma estrutura de significado. Aquilo que deve ser preenchido não é propriamente “adivinhado”, mas sim “deduzido” a partir do que o leitor tem à sua disposição. O que o leitor tem à sua disposição são as palavras do texto conforme elas são apresentadas. Aquilo que precisa ser deduzido visa produzir um sentido coerente ao texto e não corrigir aquilo que é incongruente no paralelismo. Aquilo que precisa ser deduzido não requer que a estrutura do provérbio seja melhorada ou corrigida, mas sim que o leitor melhore e corrija a sua abordagem do texto. Aquilo que precisa ser deduzido, portanto, depende acima de tudo do conhecimento que o autor do provérbio tem da cultura, da sociedade e da estrutura de raciocínio daqueles que ele espera sejam o público alvo.

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     Alter levanta o mesmo ponto quando afirma que o significado de um provérbio exige do leitor uma habilidade especial.

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O poema do livro de Provérbios, em outras palavras, coloca o intérprete imediatamente em alerta e sugere que se não formos bons leitores não descobriremos o sentido das palavras dos sábios. Eu já afirmei que o paralelismo semântico funciona de forma diferente em Provérbios quando comparado com o restante da Bíblia por causa do efeito de comprimir toda a mensagem em uma única linha. Isto é especialmente verdadeiro nas inúmeras linhas construídas com paralelismo antitético, onde a força expressiva parece vir principalmente da maneira enfática como as ideias opostas se complementam.22

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     O interesse manifestado pela rainha de Sabá nos escritos de Salomão revela, na verdade, um resultado bem-sucedido dessa estratégia. Salomão demonstra ter feito o dever de casa investigando cuidadosamente vários aspectos do saber que pudessem ser a base para a formulação destas estruturas desarticuladas. Neste sentido, somos informados que Salomão

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compôs três mil provérbios, e foram os seus cânticos mil e cinco. Discorreu sobre todas as plantas, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que brota do muro; também falou dos animais e das aves, dos répteis e dos peixes (1Rs 4.33-34).

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     O que esse texto nos revela, antes de qualquer coisa, é a abrangência do trabalho de compilação e catalogação que sustentava a produção sapiencial de Salomão. Mesmo que não mais tenhamos acesso aos milhares de provérbios e cânticos, sabemos e percebemos a maneira como isto foi determinante para o sucesso e popularidade daquilo que Salomão falou. Não é sem motivo que o mesmo texto conclui dizendo que “de todos os povos vinha gente a ouvir a sabedoria de Salomão, e também enviados de todos os reis da terra que tinham ouvido da sua sabedoria” (1Rs 4.34). Ora, a rainha de Sabá está, com certeza, incluída neste “todos os reis da terra”. O interesse dela e suas perguntas são o resultado de um longo investimento e interesse da parte de Salomão em conhecer aspectos relevantes de várias culturas que pudessem ser formulados em forma proverbial.

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     Destarte, respondendo a pergunta desta seção, aquilo que a rainha queria saber pode muito bem ser exemplificado com esta estrutura de provérbios desarticulados. Esta correlação entre as perguntas da rainha e este tipo de provérbio está fundamentada especialmente no termo hebraico traduzido por “perguntas difíceis” (hîdâ, 1Rs 10.2), que significa um enigma.

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     Há inúmeras objeções que poderiam ser levantadas ao que temos apresentado até este ponto. A primeira objeção seria quanto à questão da autoria: Quem realmente define o significado do texto? Se o texto do provérbio contém lacunas que precisam ser preenchidas pelo leitor a fim de que apareça um significado, isto não equivale a dizer que o leitor é aquele que em última instância define o que o texto significa? Se este for o caso, o responsável pelo sentido do texto é o leitor e não o autor do provérbio.

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     A questão da autoria toca num aspecto crucial que é a definição da natureza de um texto e a sua relação com o seu autor. Vanhoozer tem proposto que o significado de um texto não está fundamentado exclusivamente na subjetividade da intenção do autor e nem na subjetividade da interpretação do leitor, mas um terceiro elemento precisa ser levado em consideração – o contexto intersubjetivo. “É nesse contexto intersubjetivo”, diz Vanhoozer, “que encontramos as regras que garantem que a intenção do autor: a) é válida, b) faz sentido e c) não está baseada somente na subjetividade do próprio autor, mas em regras que tornam a sua intenção eficiente”.23 Em outras palavras, as chances de que o leitor irá preencher a lacuna com as ideias corretas vai depender de o autor estar ou não usando tais regras. Dessa forma, ainda que o provérbio do tipo desarticulado faculte ao leitor a oportunidade de preencher uma lacuna do texto, esse preenchimento precisa ser válido, precisa fazer sentido e precisa estar de acordo com aquilo que o autor originalmente idealizou para aquela lacuna.

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     A segunda objeção tem a ver com o tipo de evangelismo que pode ser alcançado com este tipo de jogo de provérbios desarticulados. Tomando como base o evento em questão, parece-me razoável postular que a literatura proverbial não pretendia ser exaustiva no que tange ao conteúdo necessário para a salvação. A proposta deste estudo não é demonstrar que podemos evangelizar apenas com os verbetes proverbiais desarticulados supracitados. Antes, o objetivo é visualizar o papel que tais verbetes têm num processo obviamente mais longo e complexo.

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     A primeira barreira que precisa ser rompida com respeito ao livro de Provérbios é a identificação da pessoa de Cristo dentro do livro. Como poderemos evangelizar no sentido mais pleno da palavra se o conteúdo do livro não trata nem menciona a pessoa e obra de Cristo? A maneira como Provérbios e os demais livros de sabedoria tratam e apresentam a pessoa de Cristo pode ser melhor entendida com a figura da sabedoria personificada. No livro de Provérbios, por exemplo, a sabedoria é apresentada na forma de uma mulher que clama no cimo dos montes e na entrada da cidade e nos portões, convidando os jovens e os tolos a abandonarem a tolice e seguirem a verdade (cf. 8.1-12). Nessa passagem podemos identificar, especialmente no v. 12, a maneira como ela, a sabedoria, se dirige diretamente ao leitor na primeira pessoa: “Eu, a Sabedoria, habito com a prudência e disponho de conhecimentos e de conselhos”.24 Mais adiante, neste mesmo capítulo, esta personagem que representa a sabedoria é descrita como alguém muito especial, que desfruta de uma intimidade privilegiada com o criador deste os tempos mais remotos (cf. 8.22-30). Uma leitura mais cuidadosa desta passagem nos faz perceber diversos temas tratados no restante do cânon (ver Figura 1).

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     O propósito da Figura 1 é demonstrar que, ao contrário do que comumente pensamos, o livro de Provérbios contém temas teologicamente relevantes para a identificação da pessoa de Cristo. Tendo dito isto, faz-se necessário acrescentar que em nenhum momento a literatura sapiencial do Antigo Testamento buscava ser um corpo independente do cânon, mesmo tendo propositalmente suprimindo diversos aspectos tão característicos da lei, dos profetas e dos salmos. Mais do que isto, os ecos da linguagem sapiencial parece se refletir em muitas passagens do Novo Testamento.25

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Figura 1

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     O fato de Jesus ter mencionado a rainha de Sabá em Mateus 12.42 como uma resposta às solicitações dos escribas e fariseus por um sinal, parece apontar para uma utilização corrente desta personagem na argumentação teológica daqueles dias. Na argumentação de Jesus, nenhum sinal precisava ser oferecido àquela geração senão os sinais de Jonas e o da rainha do sul. No caso de Jonas, a ênfase está no período em que ele passou no ventre do grande peixe e na consequente conversão dos ninivitas. No caso da rainha de Sabá, a ênfase é colocada na sua peregrinação até Jerusalém para ouvir a sabedoria de Salomão (th.n sofi,an Solomw/noj). Ora, no contexto de 1 Reis 10 observamos que ela não mais estava satisfeita em ouvir a respeito da sabedoria e decidiu que precisava ouvir a sabedoria em pessoa.

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     Esta parece ser a chave da interpretação para o caso da rainha nos dias de Salomão. A linguagem de sabedoria de Salomão deve ser entendida apenas como um ponto de partida e de captação de pessoas dentre todos os povos, a qual deveria ser complementada pela verificação formal no contexto do trono de Salomão em Jerusalém. Assim, os chamados provérbios desarticulados cumpriam sua função retórica despertando um misto de curiosidade e admiração que eventualmente culminava numa peregrinação religiosa até o monte Sião. Era somente nestes casos que o ciclo completo de intencionalidade da abordagem sapiencial era alcançado.

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O QUE CAUSOU A TRANSFORMAÇÃO NA RAINHA?

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     O que pesou mais na decisão da rainha de Sabá em deixar seu palácio e peregrinar até Jerusalém? Foi a fama de Salomão ou sua fama com respeito ao nome do Senhor? São duas coisas distintas, que podem andar juntas, mas nunca serão identificadas como sinônimas. Obviamente as fontes extrabíblicas apontam para a fama como o principal elemento que produziu o interesse na rainha. A narrativa bíblica qualifica esta fama afirmando que era uma fama com respeito ao nome do Senhor.

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     Na referência que Cristo faz à rainha de Sabá, há ainda um segundo elemento que precisa ser ressaltado. A rainha foi citada juntamente com o profeta Jonas. Ambos, de acordo com o argumento de Cristo, proporcionavam um excelente sinal para aquela geração. O elemento de comparação com a rainha de Sabá encontra seu equivalente na conversão dos ninivitas após terem ouvido a mensagem do profeta. Tanto os ninivitas quanto a rainha de Sabá se levantarão no juízo com aquela geração e a condenarão. No caso dos ninivitas se diz explicitamente que eles prevalecerão “porque se arrependeram com a pregação de Jonas” (Mt 12.41); no caso da rainha de Sabá, “porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão” (Mt 12.42). Disto podemos inferir que a leitura que Cristo faz da rainha de Sabá pressupõe também algum tipo de transformação que a colocaria na posição de condenar aquela geração de fariseus e escribas. Morris acha até que o exemplo dela seja mais contundente pelo fato de ter saído do seu próprio contexto e peregrinado em busca daquilo que julgou ser uma necessidade impostergável.26 A narrativa da visita da rainha de Sabá tem sido entendida corretamente por alguns teólogos como paradigma para o que posteriormente foi desenvolvido como uma peregrinação de nações até Sião para ouvir a lei de Deus.27

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     A narrativa de 1 Reis 10 nos mostra que o ponto mais alto desse encontro, considerando o clímax da narrativa, não foi o momento em que Salomão desvendou os enigmas e respondeu as dúvidas da rainha.28 Em outras palavras, não foi a esperteza de Salomão que a deixou profundamente impressionada, mas sim a sabedoria incorporada e integrada com a arquitetura de sua casa, o alimento sobre a sua mesa, a organização dos seus servos e oficiais, a vestimenta e o serviço deles, os sacrifícios que foram oferecidos no templo. Foi somente depois de ter contemplado todos estes aspectos entrelaçados na vida privada, pública e religiosa de Salomão que a rainha de Sabá foi descrita como tendo ficado fora de si.

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     A referência à rainha de Sabá no Alcorão enfatiza, entre outros pontos, o momento e o motivo da “transformação” de seu pressuposto religioso.29 O ponto central da discussão é a citação: “Ela disse: Ó senhor meu, em verdade fui iníqua; agora me consagro, com Salomão, a Deus, Senhor do universo!” (AnNaml 27:44).30 Quanta ênfase podemos realmente colocar sobre esta afirmação de “consagração” da rainha? Mir defende a presença de um elemento retórico no contexto literário da declaração e conclui que “para apreciar a natureza lógica deste resultado, o verso 27 que fala da conversão deve ser integralmente relacionado ao contexto mais amplo”.31 No caso do texto bíblico, a consideração do contexto mais amplo é ainda mais importante, já que temos a utilização que Cristo faz desta história em seu discurso, como foi visto anteriormente.

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     Entretanto, também é importante observar a maneira como a própria rainha processa e professa a sua experiência. Ela diz, em primeiro lugar, que o relatório que tinha ouvido a respeito de Salomão era verdadeiro, ou seja, não se tratava de propaganda enganosa ou prestígio baseado apenas em rumores. O testemunho que ela ouviu a respeito de Salomão foi confirmado por ocasião do encontro e não ofuscado pelas artimanhas dos servos de Salomão, conforme afirmam as fontes extrabíblicas. Entretanto, devemos observar que a rainha somente pode aferir a veracidade do testemunho após seu encontro com Salomão. Na confissão “foi verdade a palavra que ouvi” (1Rs 10.6) fica claro que o que era verdadeiro só posteriormente pôde ser apreciado como verdadeiro. Disto podemos postular provisoriamente um paradigma: a tarefa de compartilhar as verdades de Deus entre outras culturas deve seguir duas etapas. Em primeiro lugar, aquilo que é verdadeiro precisa chegar ao conhecimento de outros grupos étnicos inicialmente de forma indireta. Conquanto sejamos informados em 1 Reis 9.26 que Salomão intencionalmente expandiu seu reino e consequentemente suas rotas comerciais para o sul (aproximando-se assim da “rainha do sul”, conforme Mt 12.44), não podemos concluir disto que ele com a mesma intenção propagava sua sabedoria em direção à rainha de Sabá. Não sabemos qual foi o mecanismo que indiretamente levou ao conhecimento da rainha a fama de Salomão com respeito ao nome do Senhor, mas sabemos que este mecanismo não era focado apenas na rainha, tendo em vista o impacto causado em tantos outros reis e sábios que também vieram a Jerusalém com o mesmo propósito (cf. 1Rs 4.30). Para Fritz, a narrativa atinge seu clímax com o pronunciamento da rainha nos versos 6-8, quando ela se torna uma porta-voz do mundo para atribuir à sabedoria de Salomão o reconhecimento que é devido.32

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     Se esta primeira proposta estiver correta, cabe-nos indagar quanto ao tipo de verdade ou testemunho verdadeiro que pode ser compartilhado indiretamente. Com base no que foi discutido anteriormente acerca dos provérbios desarticulados, não seria difícil enxergar o papel da linguagem sapiencial neste contato inicial indireto. Nesta primeira etapa, aquilo que é verdadeiro não precisa ser defendido, mas simplesmente declarado. Neste sentido, a linguagem sapiencial parece ter sido formatada para condensar grandes doutrinas bíblicas em pequenas sentenças que aguardam o momento de serem “ativadas”.

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     Sem dúvida, esta me parece ter sido a ideia inicial de Deus para o uso da sabedoria no Antigo Testamento. Conforme Deuteronômio 4.6-8, a sabedoria é um produto da obediência correta dos preceitos do Senhor, donde a famosa máxima “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 1.7). Segundo Deuteronômio, a obediência seria a nossa sabedoria, e isso inevitavelmente chegaria aos olhos das nações ao redor. Observe que as perguntas feitas pelas nações pressupõem que elas já tivessem ouvido a respeito destes estatutos (“… ouvindo todos estes estatutos, dirão…”, Dt 4.6).

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     A segunda etapa tem a ver com a ativação da verdade na vida individual das pessoas nestes grupos étnicos. Como esta ativação ocorre? De que maneira o contato com Salomão provocou a constatação de que aquilo que ela tinha ouvido era verdadeiro? Segundo a confissão da rainha, ela não cria naquelas palavras (1Rs 10.7). Por mais que isto pareça um contrassenso, o propósito da proclamação indireta é preparar o coração das pessoas com uma mistura de dúvida, conflito, curiosidade e incredulidade. A segunda etapa, então, consiste em uma observação intencionalmente dirigida pelo Espírito Santo de aspectos da vida social, religiosa e pessoal daquele que originalmente enviou a mensagem indireta. O momento de ativação da verdade na vida da rainha é marcado pela afirmação “até que vim e vi” (1Rs 10.7).

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     Qualquer tentativa de explicar este ato de ver como figurado esbarra na descrição que precedeu esta afirmação e na aplicação que vem em seguida. Na descrição que precede a sua afirmação encontramos um relato detalhado de tudo o que ela observou enquanto transitava no contexto privado, público e religioso de Salomão (cf. 1Rs 10.4-6). O motivo por que a “mistura” referida acima se torna um combustível poderoso para a transformação é o contraste que ela proporciona. Alguns conflitos experimentados em nossa própria cultura só podem ser devidamente percebidos e ponderados quando novos conceitos, anteriormente alheios à nossa cosmovisão, acentuam as incongruências com as quais já havíamos nos acostumado. Isso significa dizer que a visita a Jerusalém proporcionou à rainha uma chance de reler suas próprias experiências num contexto diferente, onde tudo parece lembrar e apontar para nuances outrora ignoradas por sua rotina.

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     Antes de chegar a Jerusalém, ela possivelmente nunca tinha atentado mais cuidadosamente para a comida servida sobre a sua mesa, para a posição dos servos que a serviam, para a vestimenta que eles usavam, para os sacrifícios feitos ao seu deus, e o propósito maior dela era ser rainha do reino de Sabá. Após retornar de Jerusalém, ela nunca mais olharia para o alimento sobre a sua mesa da mesma maneira, nem para os seus servos, nem para suas vestes e a posição deles e, sobretudo, não olharia mais com os mesmos olhos a maneira como adoravam seus deuses em Sabá.

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     Destarte, os livros de sabedoria, como é o caso do livro de Jó, por exemplo, cumprem perfeitamente esta função de suscitar uma mistura de dúvida, conflito, curiosidade e incredulidade que é capaz de trazer à luz conflitos que há muito tempo são parasitas invisíveis comprometendo o vigor de nossa espiritualidade. O desfecho de um livro como o de Jó, no qual o personagem principal permanece ignorante daquilo que realmente causou todo o seu infortúnio, deve ter cumprido um importante papel de gerar contraste com as ideias pré-concebidas para explicar o sofrimento humano. De igual modo, o desconcertante ponto de vista adotado no livro de Eclesiastes deve ter cumprido seu papel de gerar aquela mistura de dúvida, conflito, curiosidade e incredulidade tão necessária para preparar o caminho daqueles sábios e reis que vinham ouvir a sabedoria de Salomão.

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     Há dois pontos que, a meu ver, podem ser usados para avaliar a extensão da transformação experimentada pela rainha: a) os termos de sua proclamação de louvor ao Deus de Salomão e b) sua compreensão quanto ao papel de Salomão em relação ao seu Deus. Para Walsh, o elo da sua proclamação de louvor é a ênfase no começo, meio e fim em “ouvir a sabedoria de Salomão”.33 É isso que ela busca, é isso que a impressiona e, finalmente, é esse o tema de sua palavra de louvor.

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     Na figura 2, a proclamação de louvor da rainha é precedida por uma palavra de reconhecimento na qual ela faz uma distinção entre as palavras e a sabedoria de Salomão (cf. Figura 2, L4). Sua palavra de reconhecimento afirma basicamente que as palavras não conseguiram expressar a grandeza da sabedoria que ela agora via com os próprios olhos (cf. Figura 2, L9), ou seja, os atrativos relacionados aos provérbios desarticulados eram apenas uma amostra de algo muito maior e mais glorioso. Desta forma, com base nestas palavras podemos aferir que a extensão da transformação da rainha não foi resultado apenas do “primeiro impacto”, mas estava firmado numa longa história de monitoramento.

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     O segundo elemento é a compreensão do papel do reinado de Salomão. Em sua palavra de louvor, a rainha foi capaz de sistematizar o complexo relacionamento entre Salomão, seu trono e seu Deus. Ela declara e bendiz o fato de o amor de Deus ser o início de tudo: “é porque Deus ama Israel para sempre que…” (cf. Figura 2, L18). Além disso, ela entende que o propósito de Salomão estar naquele trono não era outro senão “exercer juízo e justiça” (cf. Figura 2, L20). Não seria difícil encontrar alguém que pudesse entender o papel de Salomão da mesma maneira, mas o elemento distintivo na declaração da rainha é o seu espírito ao declarar isto – ela bendiz a Deus por Salomão ser quem é e fazer o que faz. É curioso observar que o resultado de vários dias de diálogo com Salomão tenha culminado numa palavra de louvor ao Deus dele e não a ele diretamente (cf. Figura 2, L15).34 Diante destes dois elementos, podemos aventurar uma posição mais segura de que a experiência da rainha de Sabá foi mais profunda e duradoura do que uma mera visita turística a Jerusalém. Esta me parece ser a abordagem que Jesus usa para interpretar a atitude da rainha.

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Figura 2
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     Em suma, as duas etapas propostas aqui são a proclamação e a ativação do testemunho verdadeiro a respeito do Senhor. A proclamação pode ser feita de maneira indireta, como vimos, mas a ativação requer uma experiência de interação. Esta dinâmica pode ser ilustrada nos chamados “provérbios desarticulados”, mas pode também ser vista em outros livros de sabedoria.

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CONCLUSÃO

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     O que aconteceu com a rainha de Sabá poderia ter tido um final bem diferente se a visita tivesse ocorrido num período em que Salomão estivesse afastado do Senhor e corrompido pela idolatria que caracterizou os últimos anos de sua vida. Se essa tivesse sido a situação de Salomão por ocasião da visita, possivelmente a rainha de Sabá não teria emitido as mesmas palavras de reconhecimento e louvor.

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     O que aconteceria se aqueles que de alguma forma têm sido alcançados pelo nosso ministério local e transcultural viessem testar-nos e conhecer nosso contexto pessoal, social e religioso? O que aconteceria se eles quisessem ver/ conhecer minha denominação, minha igreja local e meu envolvimento em cada uma destas instâncias? O que aconteceria se eles quisessem conhecer minha instituição de ensino, meus alunos e as pessoas que compõem meu ambiente de trabalho? Como esta experiência os ajudaria a crer naquilo que eles ouviram por meio de minha ministração?

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     Proponho que a razão pela qual a rainha de Sabá foi profundamente tocada pela experiência de ver Salomão em seu contexto é o fato de que a sabedoria é mais bem entendida quando encenada na vida real do que quando lemos a seu respeito. Seguindo a proposta de Deuteronômio 4, a intenção original de Deus era que a sabedoria fosse antes de tudo observada em nossa vida. Logo, aqueles que desejam envolver-se em um ministério transcultural efetivo precisam estar prontos e dispostos a investir fortemente na declaração que o seu estilo de vida impõe sobre sua proclamação do evangelho. O que debilita e consequentemente desacredita a nossa proclamação do evangelho é mais um efeito da ausência do nosso estilo de vida de elementos que ativem aquelas verdades. Em outras palavras, a solução do problema tem mais a ver com remodelar nosso estilo de vida do que com reformular nossa proclamação.

Daniel Santos Jr. é professor de Antigo Testamento no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. É mestre em Estudos Exegéticos do Antigo Testamento pelo Covenant Theological Seminary (2000) e doutor em Estudos Teológicos do Antigo Testamento pela Trinity Evangelical Divinity School (2006). É membro do conselho regional da Langham Partnership International na América Latina.

1 DeVRIES, Simon. 1 Kings. 2nd ed. Word Biblical Commentary 12. Nashville: Nelson, 2003, p. 139, traduz “grande comitiva” como “grande exército”.
2 HOUSE, Paul. 1, 2 Kings. The New American Commentary 8. Nashville: Broadman & Holman, 1995, p. 161. Ver também PROVAN, Iain. 1 & 2 Kings. New International Biblical Commentary. Peabody, MA: Hendrickson Publishers; Paternoster Press, 1995, p. 86–87.
3 GILLMAYR-BUCHER, Susanne. She came to test him with hard questions: foreign women and their view on Israel. Biblical Interpretation 15 (2007): 135-150.
4 NELSON, Richard. First and Second Kings. Interpretation. Atlanta: John Knox Press, 1987, p. 66.
5 SIMPSON, John. Queen of Sheba: treasures from ancient Yemen. London: British Museum, 2002; ZEVIT, Ziony; GITIN; Seymour; SOKOLOFF, Michael. Solving riddles and untying knots: biblical, epigraphic, and Semitic studies in honor of James C Greenfield (Winona Lake, Ind: Eisenbrauns, 1995); LASSNER, Jacob. Additional riddles from the riddler’s file on King Solomon and the Queen of Sheba. In: Adaptations and innovations. Dudley, Mass: Peeters, 2008, p. 249-267; LUCKS, Naomi. Makeda, the Queen of Sheba. New York: Chelsea House, 2008; ULLENDORFF, Edward. Candace (Acts 8:27) and the Queen of Sheba. New Testament Studies 2, no. 1 (S 1955): 53-56; BELCHER, Wendy Laura. African rewritings of the Jewish and Islamic Solomonic tradition: the triumph of the Queen of Sheba in the Ethiopian fourteenth-century text Kebrá nägäst. In: Sacred tropes. Boston: Brill, 2009, p. 441-459.
6 CASSEL, Paulus. Explanatory commentary on Esther: with four appendicies, consisting of the second Targum translated from aramaic with notes, Mithra, the winged bulls of Persepolis, and Zoroaster. Trans. Aaron Bernstein. Clark’s Foreign Theological Library 34. Edinburgh: T&T Clark, 1888, p. 276-284.
7 BELLIS, Alice Ogden. The Queen of Sheba: A Gender-Sensitive Reading. Journal of Religious Thought (1994): 17–28.
8 Ibid., p. 19.
9 BROOKS, Miguel F. A modern translation of the Kebra Nagast: the glory of kings. Lawrenceville, N.J.: Red Sea Press, 1997.
10 BROOKS, A modern translation of the Kebra Nagast, p. 24.
11 BELLIS, The Queen of Sheba: A gender-sensitive reading, p. 22–23; MULDER, Martin. 1 Kings. Historical Commentary on the Old Testament. Leuven: Peeters, 1998, p. 508.
12 JOSEPHUS, Ant., vol. 2, LCL, p. 395.
13 WHISTON, William (Trad.). Josephus: complete works. Grand Rapids: Kregel Publications, 1960, 8:165.
14 HIMBAZA, Une femme étrangere a-t-elle assisté au sacrifice du roi? p. 38.
15 É bom ressaltar que os enigmas também eram utilizados no mundo antigo como fonte de entretenimento, conforme explica MULDER, 1 Kings, p. 511. Ver também BRUEGGEMANN, Walter. 1 & 2 Kings. Macon, Ga.: Smyth & Helwys, 2000, p. 131-132. Há aqueles que preferem entender este encontro como um tipo de “concurso de enigmas”, como é o caso de FRITZ, Volkmar. 1 & 2 Kings. Minneapolis, Minn.: Fortress, 2003, p. 120.
16 CASSEL, Second Targum of Esther, p. 284.
17 MURPHY, Roland. Proverbs. Nashville: T. Nelson Publishers, 1998.
18 Ibid., p. 5.
19 FOX, Michael V. The rhetoric of disjointed Proverbs. Journal for the Study of the Old Testament 29, n. 2 (2005): 166.
20 Para outras possibilidades de abordagem quanto a esse provérbio, ver PERDUE, Leo. Proverbs. Louisville, Ky.: John Knox, 2000, p. 45; CLIFFORD, Richard. Proverbs: a commentary. Louisville, Ky.: Westminster John Knox, 1999, p. 22.
21 FOX, The rhetoric of disjointed Proverbs, p. 170.
22 ALTER, Robert. The art of Biblical poetry (New York: Basic Books, 1985), p. 168
23 VANHOOZER, Kevin J. Is there a meaning in this text? The Bible, the reader, and the morality of literary knowledge. Grand Rapids: Zondervan, 1998, p. 205.
24 ALTER, Robert. The wisdom books: Job, Proverbs, and Ecclesiastes: a translation with commentary. New York: W. W. Norton, 2010, p. 196.
25 Ver uma amostra da discussão desse tópico em BROWN, William. Proverbs 8:22-31. Interpretation. 63, no. 3 (2009): 286; WALTKE, Bruce K. Lady Wisdom as mediatrix: an exposition of Proverbs 1:20-33. Presbyterion 14, no. 1 (March 1, 1988): 1-15; LENZI, Alan C. Proverbs 8:22-31: three perspectives on its composition. Journal of Biblical Literature 125, no. 4 (2006): 687-714.
26 MORRIS, Leon. The Gospel according to Matthew. Pillar New Testament Commentary. Grand Rapids: Eerdmans, 1992, p. 327; FRANCE, R. T. The Gospel of Matthew. Grand Rapids, Mich.: Eerdmans , 2007, p. 489; NOLLAND, John. The Gospel of Matthew: a commentary on the Greek text. Grand Rapids, Mich.; Bletchley: Eerdmans; Paternoster Press, 2005, p. 512; GUNDRY, Robert. Matthew: a commentary on his literary and theological art. Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 1982, p. 246. 27 KÖSTENBERGER, Andreas; O’BRIEN, Peter T. Salvation to the ends of the earth: biblical theology of mission. New Studies in Biblical Theology 11. Downers Grove, Ill.: Interversity Press, 2001, p. 40.
28 Esta é, por exemplo, a posição de FRITZ, Volkmar. 1 & 2 Kings. Minneapolis, Minn.: Fortress, 2003, p. 118; ver também WALSH, Jerome. 1 Kings. Berot Olam Studies in Hebrew Narrative & Poetry. Collegeville, Minn.: Liturgical Press, 1996, p. 126.
29 Conferir discussão mais detalhada em MIR, Mustansir. The queen of Sheba’s conversion in Q 27:40. A problem examined. Journal of Qur’anic Studies 9, no. 2 (2007): 43; LASSNER, Jacob. Demonizing the Queen of Sheba: boundaries of gender and culture in postbiblical Judaism and medieval Islam. Chicago: University of Chicago Press, 1993, p. 66; SIMPSON, Queen of Sheba. 
30 EL HAYEK, Samir (Trad.). Alcorão sagrado. Rio de Janeiro: Otto Pierre, 1980.
31 MIR, The queen of Sheba’s conversion in Q 27:40, p. 53; ver também LASSNER, Demonizing the Queen of Sheba, p. 42.
32 FRITZ, 1 & 2 Kings, p. 122.
33 WALSH, 1 Kings, p. 126.
34 LEEMAN, Bernard. Queen of Sheba and biblical scholarship. Westbrook: Queensland Academic Press, 2005, p. 23.