O presbiterianismo na escócia

O primeiro pregador do protestantismo na Escócia foi Patrick Hamilton, um jovem erudito, simpatizante de Lutero, que foi morto na fogueira em 1528. O pioneiro da fé reformada foi George Wishart, um jovem culto que estudou na Suíça e lecionou na Universidade de Cambridge. Condenado por heresia, foi igualmente queimado vivo, em 1546. Sua vida, pregação e morte causaram vívida impressão no povo escocês. O líder seguinte foi John Knox, nascido entre 1505 e 1515, que havia sido guarda-costas de Wishart. Depois de passar um ano e meio como escravo em um navio francês, ele fugiu para a Inglaterra, onde se tornou capelão do jovem rei Eduardo VI. No reinado sangrento de Maria Tudor (1553-1558), foi para o continente e passou três anos em Genebra, onde estudou aos pés de Calvino. Pastoreou uma igreja de refugiados de língua inglesa e retornou à Escócia em 1559, tornando-se o líder da Reforma em seu país. Naqueles dias conturbados, ele clamou: “Ó Deus, dá-me a Escócia ou morrerei!”

Em agosto de 1560, sob a liderança de Knox, o Parlamento renunciou ao catolicismo e adotou a fé reformada para a Escócia. Em poucos dias, Knox e outros quatro homens redigiram a Confissão Escocesa, nitidamente calvinista, que foi prontamente adotada pelo Parlamento. Em dezembro reuniu-se a primeira Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana da Escócia, que redigiu o Livro de Disciplina ou constituição da igreja. Compareceram apenas seis pastores e 36 presbíteros. Na época, havia somente doze ministros protestantes em todo o país. No ano seguinte, subiu ao trono a rainha Maria Stuart, que se esforçou por restaurar o catolicismo, no que foi firmemente combatida por Knox. Forçada a abdicar, Maria fugiu para a Inglaterra, onde foi executada muitos anos mais tarde. Knox continuou o seu trabalho de reformador e pregador até a sua morte em 1572. Diante de seu túmulo, um líder declarou: “Aqui jaz alguém que nunca temeu a face do homem”.

O próximo líder da Igreja da Escócia foi Andrew Melville (1545-1622), que a tornou plenamente presbiteriana mediante uma revisão do primeiro Livro de Disciplina. Ele era dotado de grande cultura, conhecia vários idiomas e estudou o calvinismo em Genebra. Regressando para a Escócia em 1574, tornou-se o dirigente da Universidade de Glasgow e depois da Universidade de Saint Andrews. Travou lutas amargas com o jovem rei Tiago VI, que em 1603 também se tornou Tiago I da Inglaterra. Filho de Maria Stuart, ele havia sido educado como presbiteriano, mas acabou se tornando grande adversário dos reformados nos dois países, favorável que era ao sistema episcopal. Prendeu Melville na Torre de Londres por quatro anos e depois o baniu do país. Melville foi para Sedan, na França, onde lecionou em uma escola de teologia até o fim da vida. Um biógrafo da época disse: “A Escócia jamais recebeu maior benefício das mãos de Deus do que esse homem”.

A teologia reformada continuou a dominar a história da Igreja da Escócia, mas houve uma longa luta pela supremacia entre os sistemas presbiteriano e episcopal no final do século 16 e início do século seguinte. O presbiterianismo foi vigorosamente reafirmado em 1638, sob a liderança de Alexander Henderson, mas o episcopado voltou a ser imposto à igreja entre 1660 e 1689, quando ela tornou-se definitivamente presbiteriana. Uma página inspiradora dessa história será mostrada no próximo número.

 

PARTE 2

 

Quando o rei Carlos I (1625-1649) e William Laud, o arcebispo de Cantuária, tentaram impor à Igreja da Escócia a forma de governo e a liturgia da Igreja Anglicana, os escoceses se uniram em um Pacto Nacional, comprometendo-se a defender até a morte o presbiterianismo. Carlos moveu guerra contra os escoceses. Precisando de recursos, convocou eleições parlamentares, que resultaram em um parlamento puritano na Inglaterra. Esse parlamento convocou a Assembléia de Westminster (1643-1649), que teve a participação de uma pequena, mas influente delegação de teólogos escoceses (Alexander Henderson, Robert Baillie, George Gillespie e Samuel Rutherford). Concluídos os textos, a Igreja da Escócia os adotou oficialmente, deixando de lado os seus antigos documentos da época de John Knox. Através dos escoceses, os Padrões de Westminster foram levados para outras partes do mundo.

 

Carlos II (1660-1685) se esforçou ainda mais que seu pai para sujeitar a Igreja da Escócia ao sistema episcopal. Os presbiterianos outra vez se coligaram em um Pacto Nacional, ficando conhecidos como “covenanters” (pactuantes), e foram submetidos a horríveis perseguições. Milhares de homens, mulheres e crianças foram mortos por causa da sua fé. Em 1689, no reinado de Guilherme e Maria, foi aprovado um decreto de tolerância que propiciou grande liberdade religiosa. Desde a união parlamentar das duas nações em 1707, os monarcas ingleses têm jurado manter o presbiterianismo na Escócia.

 

Um novo problema surgiu em 1712, quando o Parlamento aprovou a Lei do Patronato Leigo, pela qual os grandes proprietários receberam o direito de nomear os pastores das igrejas locais (essa lei só seria revogada em 1874). Foi um golpe no governo presbiteriano representativo e causou muitas controvérsias e divisões nos 130 anos seguintes. Em 1843, Thomas Chalmers e outros 472 pastores (mais de um terço de todos os ministros) saíram da Igreja da Escócia e criaram a Igreja Livre da Escócia. Esse evento ficou conhecido como a Grande Ruptura. A Igreja Livre tornou-se grande, com quase meio milhão de membros, e produziu maior número de pastores capazes e piedosos do que os outros ramos. Em 1847, alguns grupos pequenos formaram a Igreja Presbiteriana Unida. Em 1900, a Igreja Livre e a Igreja Unida se fundiram, criando a Igreja Livre Unida da Escócia. Finalmente, em 1929 esta se uniu à igreja majoritária, mantendo-se o nome Igreja da Escócia (“Kirk”). Essa igreja congregou a grande maioria dos presbiterianos escoceses (1,25 milhão), sendo que somente 50 mil permaneceram nos outros grupos. Ela tem 12 sínodos, 64 presbitérios e 4 faculdades de teologia ligadas às antigas universidades escocesas. Inclui maior proporção da população do que qualquer outra igreja protestante no mundo de língua inglesa.

 

Associando educação e piedade, a Igreja da Escócia exerceu grande influência sobre o cristianismo mundial, bem como sobre a comunidade reformada. Suas universidades têm sido uma fonte de erudição sólida e eficaz. Imigrantes e missionários escoceses difundiram o presbiterianismo em muitos lugares do mundo. A Igreja da Escócia é mãe das Igrejas Presbiterianas da Irlanda, Canadá, Austrália e África do Sul, bem como de vários ramos do presbiterianismo americano e de igrejas em campos missionários (nos anos 1970, havia trabalho em 21 campos no exterior). Ela produziu maior número de grandes pregadores, eruditos e escritores que qualquer outro grupo presbiteriano no mundo. Hoje essa grande e histórica igreja passa por dolorosa crise, enfraquecida pelo secularismo e pelo liberalismo teológico.