Identidade e Organização da Igreja na Teologia de Paulo

Leandro Lima

21 November 2017

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Identidade e Organização da Igreja na Teologia de Paulo

Identidade e Organização da Igreja na Teologia de Paulo

RESUMO

 

Este artigo aborda a questão da organização da igreja na teologia do apóstolo Paulo, numa comparação com diversos pressupostos organizacionais vistos nas igrejas modernas. Descreve a importância da hierarquia na organização da igreja do Novo Testamento, que, não obstante, jamais concorre com o senhorio de Cristo. Nesse sentido, demonstra que, embora com fundamento bíblico, a hiperorganização de muitas igrejas modernas se afasta do padrão do Novo Testamento, assim como o padrão desorganizado das igrejas emergentes. Aborda a relação entre igreja local e igreja como federação, mostrando o aspecto local como predominante na teologia paulina. Porém, o aspecto federado não é desconsiderado quando a igreja consegue se manter sob a servilidade do Cabeça e sem perder de vista a importância dos ministérios que a fazem crescer. O sistema conciliar é fundamentalmente bíblico, desde que nunca perca a simplicidade em seu modo de dirigir a igreja e a união das igrejas seja marcada prioritariamente pela identidade doutrinária.

PALAVRAS-CHAVE

 

Igreja; Identidade eclesiástica; Organização eclesiástica; Sistemas de governo; Igreja local.

 

INTRODUÇÃO

 

Ler sobre a igreja nas páginas do Novo Testamento parece nos remeter a uma instituição simples, viva, eficiente em seu testemunho, absolutamente livre de burocracia eclesiástica, voltada integralmente para a prática dos grandes pilares da fé: doutrina, comunhão, oração, adoração e crescimento (At 2.42-47). Ela parece muito distante da realidade das grandes igrejas hiperorganizadas dos dias atuais, muitas delas com estrutura hierárquica capaz de causar inveja em multinacionais. Não são poucos os crentes que se revoltam contra as estruturas rígidas e seculares de denominações que resistem empedernidas aos ventos de inovação que sopram dos movimentos liberais ou carismáticos, e buscam igrejas “livres”, sem organização centralizada, onde possam supostamente recuperar a simplicidade do evangelho.

 

Nos dias atuais, dois modelos de igrejas se destacam cada vez mais. Existem as igrejas “modernas” nascidas no final da Idade Média e início do período moderno, com forte estrutura denominacional centralizada, e as igrejas “pós-modernas”, chamadas “livres” ou “emergentes”. Ambos os modelos se subdividem em muitos aspectos.1 Na estrutura superorganizada, a igreja local pode se tornar uma espécie de “franquia” que precisa seguir o padrão “de cima”, ditado pelo líder supremo ou fundador. Nas igrejas emergentes, apesar de, aparentemente, privilegiarem o aspecto local, isso é feito de maneira tão informal que as próprias características do que é uma igreja à luz do Novo Testamento podem desaparecer.

 

Pretendemos neste artigo analisar biblicamente qual é a identidade e a organização que a igreja recebe no Novo Testamento, em especial nos escritos paulinos. Evidentemente um estudo completo dessa natureza torna-se inviável em um artigo reduzido, por isso pretendemos aqui estabelecer alguns conceitos específicos sobre a igreja a partir da teologia paulina, abordando a identidade local da igreja, o caráter de corpo de Cristo e a organização da igreja segundo as definições do apóstolo dos gentios. Isso, por sua vez, servirá como um ponto de partida para uma discussão que pode se tornar mais ampla a respeito do próprio modelo presbiteriano atual, o qual busca ser biblicamente orientado.

1. A IMPORTÂNCIA DA IGREJA LOCAL PARA PAULO

 

Um elemento fundamental na teologia de Paulo é seu conceito de igreja.2 Paulo menciona o termo 46 vezes. Mas a igreja que Paulo ajudou a fundar era uma instituição corporativa ou fundamentalmente local? Sua forma de governo era centralizada ou cada congregação fazia o que achava melhor?

 

Inicialmente é preciso dizer que todas as doutrinas desenvolvidas nos escritos paulinos são doutrinas formuladas para as igrejas locais.3 Não são conceitos abstratos, como se fossem divagações de uma mente filosófica, mas formulações de uma mente cativa por Cristo em busca de soluções e orientações para situações específicas de cada igreja em cada cidade. Essas orientações se tornam patrimônio da igreja como instituição atemporal exatamente devido ao caráter canônico das cartas. Porém, desconsiderar o aspecto “local” da igreja na teologia de Paulo em prol de um conceito mais “universal” é como considerar a planta independente do solo em que está plantada.

 

A teologia de Paulo está a serviço da igreja local. Para ele, essa igreja é, antes de qualquer coisa, a Igreja, ou a Igreja de Deus. Ela não tem outro título (1Co 1.2; 10.32; 11.22; 15.9; 2Co 1.1; Gl 1.13; 1Tm 3.15). Evidentemente que nesta relação de posse há muitas coisas envolvidas, pois a igreja “é um corpo de pessoas que pertencem não a si mesmas ou a algum líder ou grupo, mas a Deus”.4 Ninguém, portanto, pode ser o líder supremo da igreja plantada por Paulo, pois ela não pertence a homem algum, mas a Deus. Deus a governa por meio das instruções que ele mesmo deixou para ela.

 

A igreja é o “povo de Deus”. O termo para o apóstolo não é uma abstração. Fica claro que são pessoas que Cristo resgatou, e não raro este termo é empregado para o momento em que estão reunidas.5 Assim Paulo saúda a Igreja de Roma que se reúne na casa de Priscila e Áquila (Rm 16.3-5). E Gaio é o “hospedeiro da igreja” onde Paulo estava ao escrever a carta (Rm 16.23, ver 1Co 11.18). Algumas vezes, Paulo usa o termo no plural, mas geralmente quando uma localidade é informada, sugerindo que há uma certa quantidade de igrejas naquele local, como é o caso das “igrejas da Galácia” (1Co 16.1; Gl 1.2), das “igrejas da Ásia” (1Co 16.19), das “igrejas da Macedônia” (2Co 8.1) ou das “igrejas da Judeia” (Gl 1.27).6

 

Porém, isso não significa que Paulo pensava na igreja como uma instituição apenas local. Há também uma ideia de instituição atemporal e universal nos escritos paulinos, especialmente nas cartas aos Efésios e Colossenses. Paulo, algumas vezes, menciona igrejas para outras igrejas nos seus escritos, apontando para a unidade interlocal das igrejas. Por exemplo, ele fala das igrejas da Galácia e da Macedônia para os coríntios (1Co 16.1; 2Co 8.1) e até menciona “todas as igrejas dos santos” como padrão de comportamento para eles (1Co 14.33). Aos romanos ele mandou uma saudação de “todas as igrejas de Cristo” (Rm 16.16). Portanto, há uma tensão entre a igreja local e a igreja universal. Porém, é muito difícil estabelecer a linha divisória entre elas nos escritos paulinos.

 

2. A IGREJA E A NOVA ALIANÇA

 

Paulo entende que a igreja de Deus é o Israel no Novo Testamento.7 Ele vê a igreja como a descendência espiritual de Abraão, e, portanto, o verdadeiro Israel, não o da carne, mas o da promessa (Rm 4.16; 9.8). Estar em Cristo, segundo Paulo, é ser um descendente espiritual de Abraão e ser herdeiro da promessa de Abraão (Gl 3.29). A igreja é o novo povo de Deus porque em sua existência a igreja cristã revelou que Deus cumpriu nela as promessas feitas a Israel no período do Antigo Testamento. Isso significa que a igreja é uma espécie de continuação de Israel, porém não uma simples continuação, pois “num sentido positivo, ele pressupõe que a igreja origina-se, é nascida de Israel; por outro lado, a igreja substitui Israel como povo histórico de Deus”.8

 

Na teologia de Paulo, os elementos materiais da Aliança com Israel no Antigo Testamento passam a ser elementos espirituais. Especialmente a questão da circuncisão é afetada neste sentido. Paulo ensina enfaticamente que a verdadeira circuncisão não é mais a da carne, e sim, a do coração (Rm 2.29), sendo que a circuncisão da carne, sustentada em rebelião a Cristo, passa a ser “falsa circuncisão” (Fp 3.2; ver Rm 2.25; Ef 2.11), tornando-se uma espécie de “mutilação” ao ser praticada como concorrente da graça (Gl 5.11-12). E os crentes receberam uma nova circuncisão através do batismo (Cl 2.11-12), que espiritualmente significa o morrer e ressuscitar com Cristo.

 

Na igreja, para Paulo, ser judeu e ser circuncidado adquire um significado puramente espiritual e os fatores naturais deixam de ser levados em consideração.9 Paulo, pessoalmente, já não se orgulha de seu status como descendente israelita, ou de circuncidado, pois seu único orgulho é o de ter sido encontrado pelo Cristo vivo (Fp 3.1-14). Assim ele diz: “Porque nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne” (Fp 3.3). Por causa de Cristo, todos os privilégios do povo de Deus no Antigo Testamento passam, no sentido espiritual, para a igreja. Assim como pertencia ao povo de Israel no Antigo Testamento, agora pertence aos membros da igreja o privilégio de serem filhos de Deus (Rm 8.14ss; Ef 1.5), herdeiros da promessa (Gl 3.29; 4.7); coparticipantes da herança de Abraão (Rm 8.17; Cl 1.2); herdeiros do reino de Deus (1Co 6.9-10; 15.50; Gl 5.21).10 Como diz Ridderbos, “em resumo, todas as designações ricamente variadas de Israel como povo de Deus são aplicadas à Igreja Cristã, mas agora, dentro do contexto da salvação que se manifestou em Cristo”.11

 

Israel era uma comunidade extremamente formalista. Os mecanismos de manutenção da religião na nação a aprisionaram numa rotina de legalismo e fé burocrática. Em contraste, o Espírito que habita a igreja capacita o povo de Deus, nas comunidades locais, a viver não uma Aliança com ordenanças escritas na pedra, mas escritas no coração, como Jeremias profetizou mais de 600 anos antes (Jr 31.31-34).12 Para Paulo, a igreja local é a herdeira da Aliança e de todas as promessas de Deus, e expressa isso plenamente na medida em que mantém sua identidade doutrinária e leva adiante sua missão. O sacerdócio hierárquico de Israel não permanece na igreja, pois tendo sido cumprido na pessoa de Cristo, agora torna-se um patrimônio comum de cada membro que faz parte do corpo de Cristo.

 

3. CORPO E CRESCIMENTO

 

Um dos conceitos fundamentais a respeito da igreja, na visão de Paulo, é a metáfora do “corpo” (1Co 12.12ss). Foi o modo que Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, encontrou para explicar o verdadeiro sentido da igreja. A coparticipação de cada membro, a importância fundamental de cada um, submisso ao cabeça, é o grande mérito dessa metáfora paulina.

 

Um dos aspectos mais difíceis, entretanto, nesse sentido, é a relação da igreja como corpo com o seu “cabeça” que é Cristo.13 A interpretação protestante mais tradicional entende que Paulo está usando uma metáfora para indicar a comunhão coletiva que o povo de Deus tem com Cristo através do Espírito. Na interpretação católica, entende-se que Paulo está usando uma ideia real e pessoal, como se a Igreja fosse uma extensão física do corpo de Cristo.14 No nosso entendimento a expressão “corpo de Cristo” indica a relação espiritual que a Igreja desfruta com Cristo, uma vez que o Espírito Santo está nela e este Espírito é o que estabelece a unidade na igreja em si mesma e com relação a Cristo. No entanto, entendemos que a metáfora tem um duplo sentido. Por um lado ela representa a união com Cristo no sentido apenas corporal, pois Cristo está presente na igreja, e assim ela é seu corpo. Neste caso a metáfora aponta para uma identificação entre a Igreja e Cristo. Esse conceito é explorado principalmente em Romanos e 1Coríntios, e pretende apontar para a base do relacionamento dos crentes entre si. Entender que são membros do corpo de Cristo é a solução para os problemas entre os crentes, como estava acontecendo em Corinto. Por outro lado, especialmente nas cartas aos Efésios e Colossenses, Paulo destaca a função de Jesus como cabeça da igreja. Nesse sentido ele não está destacando Cristo como parte do corpo, pois Cristo é o corpo inteiro. Porém, ele destaca a relação de submissão que existe por parte da igreja em relação a Cristo, ou seja, o senhorio de Jesus sobre o corpo, o único e verdadeiro chefe da igreja local e da igreja universal.

 

Nessa relação, o destaque principal de Paulo talvez seja para o elemento de capacitação. No capítulo 4 de Efésios, Paulo mais uma vez fala de Cristo como cabeça da igreja (4.15). Ele descreve a necessidade de viver em unidade na igreja local com base no fato de que “há somente um corpo e um Espírito” (Ef 1.4). Esse Espírito derramou dons sobre a igreja a fim de capacitá-la para a missão no mundo (Ef 4.7-12). O objetivo, segundo Paulo, é “até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.13).

 

Ser como Cristo é a meta da igreja. E por isso ele complementa: “Seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef 4.15-16).

Aqui a figura da “cabeça” aparece com o propósito de dar o crescimento para o corpo, e a imagem é impressionante, pois a relação orgânica do corpo com a cabeça e do próprio corpo entre si, sugere um desenvolvimento simétrico. É somente em Cristo que a igreja como corpo recebe toda a sua capacidade para crescer e para desenvolver sua atividade, recebendo assim uma direção única para funcionar como entidade coordenada.15 A Igreja deve crescer em Cristo, que por sua vez ajusta e consolida o corpo entre si, de modo que o corpo como um todo (corpo e cabeça) produz o crescimento de si mesmo. Porém, os instrumentos utilizados pelo cabeça para que o corpo cresça são os próprios membros do corpo, com destaque para as funções de “apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres” (Ef 4.11). Ou seja, a organização formal da igreja é vital para seu crescimento. O papel da liderança formal não está contra o princípio do senhorio de Cristo, antes o consolida e dá condições para que Jesus faça sua igreja crescer como corpo.

Esse crescimento se dá tanto no sentido de expansão quanto no sentido de coesão e unidade do corpo. Por isso os capítulos 4 e 5 de Efésios falam também sobre os relacionamentos na igreja, que devem ser mediados pela santidade na Palavra, pela mútua exortação e pelo culto comunitário. Ou seja, mais uma vez os aspectos locais são abordados, porém em conexão com os aspectos formais estabelecidos por Deus. Em seguida, no final do capítulo 5 e início do capítulo 6, Paulo destaca os relacionamentos familiares e as relações de trabalho como centralizadas na pessoa de Cristo e no seu exemplo. Finalmente, volta a tratar dos principados e potestades no final da epístola,16 destacando que, embora Cristo tenha se colocado acima deles e, neste sentido, os tenha subjugado, eles continuam como ameaças para a igreja. Não uma ameaça cósmica, pois nesse sentido os inimigos já foram derrotados e despojados (Cl 2.15); entretanto, continuam ameaçando localmente os crentes, por isso a nossa “luta” não é contra a carne e o sangue, mas contra esses principados e potestades (Ef 6.12). O inimigo da igreja, derrotado por Cristo, posto debaixo de seus pés, continua atacando a igreja local, utilizando técnicas de guerrilha, as quais somente podem ser vencidas quando o crente está revestido de “toda” a armadura de Deus.

Portanto, mesmo quando Paulo trata da igreja como corpo, ele está pensando prioritariamente na igreja local, sua identidade, sua luta e sua missão. Mas essa igreja local é submissa ao cabeça que a governa e faz crescer através dos ministérios instituídos por ele mesmo. A função desses ministérios é ajudar cada membro a realizar o “autocrescimento”.

 

4. PAULO E A ORGANIZAÇÃO DA IGREJA

 

O apóstolo Paulo e seu ajudante Tito haviam permanecido em Creta durante algum tempo e, depois de um bem-sucedido trabalho missionário, igrejas estavam implantadas em várias cidades da ilha. Parece que o apóstolo Paulo preferia o desafio de desbravar a organizar o trabalho. Por essa razão, provavelmente sentindo o chamado para se dirigir a outro lugar, deixou em Creta seu ajudante Tito para organizar as coisas. Assim ele escreveu a Tito: “Por esta causa, te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi” (Tt 1.5). O fato de Paulo não fazer o trabalho de organização não significava que ele não devesse ser feito. Paulo tinha toda a consciência de que o trabalho precisava ser organizado. Sem organização e liderança local uma igreja não sobrevive, mesmo que tenha sido plantada por um apóstolo. O trabalho de Tito em Creta indica que a igreja precisa de organização, pois “as igrejas paulinas foram carismáticas, mas elas também foram estruturadas. Carisma e estrutura não são mutuamente excludentes. Dependência do Espírito não exclui ordem”.17

 

Inicialmente a igreja primitiva foi governada pelos apóstolos e nela atuavam os profetas e os evangelistas (Ef 4.11). Esses três ofícios eram extraordinários e escolhidos diretamente por Deus. Eram pessoas que recebiam algum tipo de chamado direto de Deus. Quando esses homens morreram, a igreja continuou sendo administrada pelos “pastores e mestres” (Ef 4.11), ou seja, pelos presbíteros ou bispos.

 

Os presbíteros, desde o início, foram os líderes levantados por Deus para promover o crescimento da igreja.18 Eram homens que deviam servir como referência para os demais crentes e para a sociedade. Por essa razão, esses homens precisavam ser escolhidos cuidadosamente. Cabia a eles conduzir o trabalho quando Paulo e seus cooperadores não pudessem mais estar presentes. Por essa razão, deviam ser homens muito fiéis.

 

Presbítero significa “ancião” e bispo significa “supervisor”, sendo designativos de uma mesma pessoa e, portanto, sinônimos. De acordo com a Bíblia, os presbíteros deviam ser escolhidos pela igreja local (At 14.23) e, portanto, não eram ofícios extraordinários, mas ordinários. Os presbíteros participaram com os apóstolos do primeiro concílio da igreja, realizado em Jerusalém e registrado em Atos 15. Nesse concílio, tiveram a mesma autoridade dos apóstolos (At 16.4).

Paulo explicou aos presbíteros de Éfeso que eles eram “bispos” cuja função era “atender por todo o rebanho e pastorear a igreja de Deus” (At 20.28). No contexto, significa cuidar especialmente da doutrina.

 

Outra classe distinta de oficiais da igreja primitiva foram os diáconos. Geralmente se pensa que o surgimento dessa classe se deu em Atos 6, quando um grupo de sete homens foi escolhido para ajudar a servir as mesas. Embora esse texto não os chame de “diáconos”, é provável que esta seja realmente a origem desse ofício. Os diáconos não são uma classe “inferior” aos presbíteros, mas um grupo com função diferente. Cabe aos diáconos assistir às pessoas nas suas necessidades físicas, muito embora, de acordo com o apóstolo Paulo, o ministério diaconal também fosse incumbido de funções espirituais (Fp 1.1; 1Tm 3.8,10,12).

 

Do que foi visto brevemente fica óbvio que os oficiais tinham a responsabilidade de ensinar a igreja e governá-la através de concílios locais e, quando necessário, para o bem-comum das igrejas, tomar decisões globais, como foi o caso de Atos 15. Nos escritos paulinos não vemos uma defesa de concílios gerais, mas vemos uma organização conciliar local bem evidente através da escolha dos presbíteros e diáconos. Portanto, o governo das igrejas paulinas não estava nas mãos do povo diretamente, nem nas mãos de um líder, mas sobre um grupo de pessoas que, ao que tudo indica, era escolhido pela própria igreja, com base em seu testemunho. Assim, o sistema presbiteriano é o que mais se aproxima do ensino do Novo Testamento. No entanto, é verdade que, em muitos aspectos, esse sistema corre o risco de ir além do que a Escritura prescreve, especialmente quando se torna excessivamente burocrático, quando as decisões tomadas são mais políticas do que bíblicas, quando descuida da importância do crescimento do corpo ou quando os aspectos materiais da igreja se sobressaem aos aspectos pastorais. Mas esse é um risco que todos os sistemas correm. No entanto, algo importante a ser lembrado é que a função do oficial no Novo Testamento, e especialmente nas cartas paulinas, é ser útil para o crescimento do corpo. “Sua função primária é repassar a tradição e a verdade do Evangelho. Em outras palavras, sua liderança, diferentemente de muitas denominações hoje, não é primariamente burocrática”.19

 

Como palavra final deste artigo introdutório, a ressalva de Berkhof é útil, embora não deva ser usada como subterfúgio: As igrejas reformadas (calvinistas) não têm a pretensão de que o seu sistema de governo seja determinado, em todas as minúcias, pela Palavra de Deus, mas asseveram que os seus princípios fundamentais são derivados diretamente da Escritura.20

 

CONCLUSÃO

 

O que se percebe dos escritos paulinos é que não havia uma organização forte e desenvolvida que unificasse as igrejas nas diversas cidades, a não ser a identidade doutrinária e a autoridade apostólica sob o senhorio de Cristo. Ainda assim, é uma autoridade espiritual e docente, que, de qualquer modo, durou apenas algumas décadas, não encontrado substituição nos mesmos termos. Por outro lado, a organização da igreja aparece claramente no nível local, pois Paulo mandava que fossem escolhidos “presbíteros” nas cidades para supervisionar a igreja (Tt 1.5). Esses oficiais eram responsáveis pelo crescimento do “corpo”.

 

A liderança formal nessas igrejas recebe o aval de Paulo, que diz: “Agora, vos rogamos, irmãos, que acateis com apreço os que trabalham entre vós e os que vos presidem no Senhor e vos admoestam; e que os tenhais com amor em máxima consideração, por causa do trabalho que realizam” (1Ts 5.12-13). Portanto, a igreja por cuja implantação Paulo foi o maior responsável era uma igreja simples, porém não desorganizada. Sua organização era apenas essencial,21 mas submissa à revelação de Deus, com forte identidade doutrinária e uma poderosa consciência de ser o novo “povo de Deus”, com o objetivo de alcançar o mundo.

 

ABSTRACT

 

The article addresses the issue of church organization in the theology of the apostle Paul in comparison to various organizational presuppositions seen in modern churches. It describes the importance of hierarchy in New Testament church structure, which, however, does not compete with the lordship of Christ. It also demonstrates that, despite their appeal to Scripture, the hyper-organization of many modern churches departs from the New Testament standards, which is also true of the disorganized pattern of the emergent churches. The author deals with the relationship between the local church and the church as a federation, showing the local dimension as predominant in Pauline theology. However, the connectional aspect should not be forgotten so far as it remains in submission to the Head and keeps in mind the importance of the ministries that make the church grow. The system of church councils is fundamentally biblical, provided it retains simplicity in the way it leads the church and the unity of the churches is mainly characterized by doctrinal identity.

 

KEYWORDS

 

Church; Ecclesiastical identity; Ecclesiastical organization; Church order; Local church.

Leandro Lima  é ministro presbiteriano e pastor auxiliar na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, em São Paulo. É doutor em literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. É autor de diversos livros, entre os quais Razão da Esperança: Teologia Para Hoje e O Futuro do Calvinismo: Os Desafios e Oportunidades da Pós-Modernidade para a Igreja Reformada, ambos pela Editora Cultura Cristã. É professor de Teologia Sistemática no Seminário JMC e de Novo Testamento no CPAJ.

1 As igrejas com governo centralizado são as “presbiterianas” e “episcopais”. Estas últimas podem se tornar totalmente centralizadoras, com a figura do fundador como autoridade absoluta, reivindicando o título de Apóstolo, como nos modelos episcopais neopentecostais. Os modelos livres são as congregacionais e, principalmente, as emergentes, mais recentes. Estas últimas podem se tornar totalmente abertas, comunidades com quase nenhum elemento doutrinário identificador, a não ser o relativismo pós-moderno.
2 Nossa palavra em português, “Igreja”, é praticamente uma transliteração do termo grego evkklhsi,a” que era usado para uma assembleia popular (At 19.32, 39-40). Ver SCHMIDT, K. L. ekklēsía. In: KITTEL, Gerhard; FRIEDRICH, Gerhard (eds.). Theological Dictionary of the New Testament, Abridged in One Volume. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1985, p. 399. Também em SCHMIDT, K. L. Igreja. In: KITTEL, Gerhard (ed.). A igreja no Novo Testamento. São Paulo: Aste, 1965, p. 15-63. Séculos antes da tradução da LXX e dos tempos do Novo Testamento, era claramente caracterizada como fenômeno político, que se repetia conforme certas regras e dentro de certo arcabouço. Na antiguidade, termo, exceto em raríssimas exceções, não foi empregado para comunidades religiosas. Ver COENEN, L. e,kklhsi,a. In: BROWN, Colin (ed.). Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1982, reimpresso em 1989, vol. II, p. 393-408. A grande maioria das ocorrências da palavra “Igreja” aparece nas cartas de Paulo (46 vezes de um total de 114). Foi especialmente Paulo quem formou este conceito, embora João o use amplamente no Apocalipse (20 vezes).
3 Mesmo quando Paulo se dirige a indivíduos específicos, ainda assim é preciso ver esses indivíduos como parte da igreja.
4 MACARTHUR, John F. The MacArthur New Testament Commentary: First CorinthiansChicago: Moody Press, 1983 (1Co 1.2).
5 Ver FEE, Gordon. Primera Epistola a los Corintios. Buenos Aires & Grand Rapids: Nueva Creacion & Eerdmans, 1994, p. 36 (1Co 1.2).
6 SCHREINER, Thomas R. New Testament Theology: Magnifying God in Christ. Grand Rapids: Baker Academic, 2008, p. 713.
7 O próprio uso da expressão “igreja de Deus” por Paulo é um eco da expressão vétero-testamentária Qehal-Yahweh em Deuteronômio. Ver RIDDERBOS, Hermann. A teologia do apóstolo Paulo. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 372; e RICHARDSON, Alan. Introdução à teologia do Novo Testamento. São Paulo: Aste, 1966, p. 282-283.
8 RIDDERBOS, 2004, p. 377.
9 RIDDERBOS, 2004, p. 379.
10 Ver RIDDERBOS, 2004, p. 380.
11 RIDDERBOS, 2004, p. 380.
12 Ver KISTEMAKER, Simon J. 2 Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 153.
13 Karl Ludwig Schmidt diz que da Igreja como corpo de Cristo “só se deve falar prudentemente, com reserva”, pois “do ponto de vista de Paulo não se deve falar nem muito clara, nem muito correntemente do organismo que o corpo de Cristo deveria representar”. SCHMIDT, Karl L. Igreja. In: KITTEL, 1965, p. 30. Obviamente temos bastante dificuldades com esta posição, ainda que respeitemos a moderação que é devida a toda a teologia.
14 Ridderbos diz: “Quanto a isso, é especialmente importante a maneira pela qual, de acordo com o ponto de vista católico, a Igreja participa, na eucaristia, do corpo do Senhor. Tudo isto tem como efeito o fato de que a Igreja é referida como corpo de Cristo de maneira bastante “sólida”, e é colocada uma grande ênfase sobre a identidade de Cristo e seu corpo-igreja. A Igreja pode ser denominada corpo de Cristo, pois, na Igreja, Cristo recebe uma extensão de sua existência”. RIDDERBOS, 2004, p. 410.
15 Ver: FOULKES, Francis. Efésios: Introdução e comentário. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 103.
16 Ele já os havia mencionado no capítulo 1, quando demonstrou que Jesus, como cabeça da igreja, foi posto acima dos principados e potestades (Ef 1.21), e também no capítulo 3, quando disse que, através da igreja, os principados e potestades tomavam conhecimento da multiforme sabedoria de Deus (Ef 3.10).
17 SCHREINER, 2008, p. 735.
18 G. K. Beale entende que os oficiais da igreja surgiram devido ao contexto predito de tribulação e apostasia: “Presbíteros e bispos foram necessários para manter a pureza doutrinária da comunidade do pacto”. BEALE, G. K. A New Testament Biblical Theology: The unfolding of the Old Testament in the New. Grand Rapids: Baker Academic, 2011, p. 820.
19 SCHREINER, 2008, p. 738.
20 BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. Campinas: Luz Para o Caminho, 1990, p. 585.
21 Karl L. Schmidt diz que no início havia mais carismas espirituais do que posteriormente, e que no lugar dos carismáticos entraram mais tarde os presbíteros e os bispos. SCHMIDT, Karl L. Igreja. In: KITTEL, Gerhard. A igreja do Novo Testamento. São Paulo: Aste, 1965, p. 61. Apesar de concordarmos com o autor de que a igreja passou do cristianismo primitivo para o catolicismo antigo porque a concepção jurídica da igreja passou a ser divinizada, como direito divino, é preciso que se entenda que bispos e presbíteros eram também dons pneumáticos da igreja, e estavam em plena consonância com o caráter espiritual da igreja do Novo Testamento.