História da Igreja

A CONFISSÃO DE FÉ DA GUANABARA (1558)

(Tradução de Erasmo Braga)

Segundo a doutrina de São Pedro Apóstolo em sua primeira epístola, todos os cristãos devem estar sempre prontos para dar a razão da esperança que neles há, e isso com toda a doçura e benignidade. Nós, abaixo assinados, Senhor de Villegaignon, unanimemente (segundo a medida de graça que o Senhor nos concedeu) damos razão a cada ponto, como nos haveis apontado e ordenado, começando no primeiro artigo:

I. Cremos em um só Deus, imortal e invisível, criador do céu e da terra, e de todas as coisas, tanto visíveis como invisíveis, o qual é distinto em três pessoas: o Pai, o Filho e o Santo Espírito, que não dizem respeito senão a uma mesma substância em essência eterna e uma mesma vontade; o Pai, fonte e começo de todo o bem; o Filho, eternamente gerado do Pai, o qual, cumprida a plenitude do tempo, se manifestou em carne ao mundo, sendo concebido do Santo Espírito, nascido da virgem Maria, feito sob a Lei para resgatar os que sob ela estavam, a fim de que recebêssemos a adoção de próprios filhos; o Santo Espírito, procedente do Pai e do Filho, mestre de toda a verdade, falando pela boca dos Profetas, sugerindo todas as coisas que foram ditas por nosso Senhor Jesus Cristo aos apóstolos. Este é o unico consolador na aflição, dando constância e perseverança em todo o bem.

Cremos que é mister somente adorar e perfeitamente amar, rogar e invocar a majestade de Deus em fé ou particularmente.

II. Adorando nosso Senhor Jesus Cristo, não separamos uma natureza da outra, confessando as duas naturezas, a saber, divina e humana, nele inseparáveis.

III. Cremos, quanto ao Filho de Deus e ao Santo Espírito, o que a Palavra de Deus, a doutrina apostólica e o Símbolo[1] nos ensinam.

IV. Cremos que nosso Senhor Jesus Cristo virá julgar os vivos e os mortos, em forma visível e humana como subiu ao céu, executando tal juízo na forma em que nos predisse em São Mateus, vigésimo quinto capítulo, tendo, enquanto homem, todo o poder de julgar, a ele dado pelo Pai. E, quanto ao que dizemos em nossas orações, que o Pai aparecerá enfim na pessoa do Filho, entendemos por isso que o poder do Pai, dado ao Filho, será manifestado no dito juízo, não, todavia, que queiramos confundir as pessoas, sabendo que elas são realmente distintas uma da outra.

V. Cremos que no Santíssimo Sacramento da Ceia, com as figuras corporais do pão e do vinho, as almas fiéis são realmente e de fato alimentadas com a própria substância de nosso Senhor Jesus, como nossos corpos são alimentados de alimentos, e assim não queremos dizer que o pão e o vinho sejam transformados ou transubstanciados no corpo e sangue dele, porque o pão continua em sua natureza e substância, semelhantemente o vinho, e não há mudança ou alteração.

Distinguimos, todavia, este pão e vinho do outro pão que é dedicado ao uso comum, sendo que este nos é um sinal sacramental, sob o qual a verdade é infalivelmente recebida.

Ora esta recepção não se faz senão por meio da fé e nela não convém imaginar nada de carnal, como quem prepara os dentes para o comer, como santo Agostinho nos ensina, dizendo: “Porque preparas tu os dentes e o ventre? Crê, e tu o comeste”.

O sinal, pois, nem nos dá a verdade, nem a coisa significada; mas nosso Senhor Jesus Cristo, por seu poder, virtude e bondade, alimenta e preserva nossas almas, e as faz participantes de sua carne, de seu sangue e de todos os seus benefícios.

Vejamos a interpretação das palavras de Jesus Cristo: “Este pão é o meu corpo”.

Tertuliano, no livro quarto contra Marcião, explica estas palavras assim: “Este é o sinal e a figura do meu corpo”.

Santo Agostinho diz: “O Senhor não evitou dizer: Este é o meu corpo, quando dava apenas o sinal de seu corpo”.

Portanto (como é ordenado no primeiro cânon do Concílio de Nicéia), neste santo Sacramento não devemos imaginar nada de carnal e nem nos distrair no pão e no vinho, que nos são neles propostos por sinais, mas levantar nossos espíritos ao Céu para contemplar pela fé o Filho de Deus, nosso Senhor Jesus, sentado à destra de Deus, seu Pai.

Neste sentido podíamos juntar o artigo da Ascenção, com muitas outras sentenças de Santo Agostinho, que omitimos temendo ser longas.

VI. Cremos que, se fosse necessario pôr água no vinho, os evangelistas e São Paulo não teriam omitido uma coisa de tão grande conseqüência.

E quanto ao que os doutores antigos têm observado (fundamentando-se sobre o sangue misturado com água que saiu do lado de Jesus Cristo), desde que tal observância não tem nenhum fundamento na Palavra de Deus, visto mesmo que isso aconteceu depois da instituição da Santa Ceia, nós não a podemos hoje admitir necessariamente.

VII. Cremos que não há outra consagração que a que se faz pelo ministro, quando se celebra a Ceia, recitando o ministro ao povo, em linguagem conhecida, a instituição desta Ceia literalmente, segundo a forma que nosso Senhor Jesus Cristo nos prescreveu, admoestando o povo da morte e paixão de nosso Senhor. E mesmo, como diz Santo Agostinho, a consagração e a palavra de fé que é pregada e recebida em fé. Pelo que, segue-se que as palavras secretamente pronunciadas sobre os sinais não podem ser a consagração como aparece da instituição que nosso Senhor Jesus Cristo deixou aos seus apóstolos, dirigindo suas palavras aos seus discípulos presentes, aos quais ordenou tomar e comer.

VIII. O Santo Sacramento da Ceia não é alimento para o corpo, como o é para as almas (porque nós não imaginamos nada de carnal, como declaramos no artigo quinto), recebendo-o por fé, a qual não é carnal.

IX. Cremos que o batismo é Sacramento de arrependimento, e como uma entrada na Igreja de Deus, para sermos incorporados em Jesus Cristo. Representa-nos a remissão de nossos pecados passados e futuros, a qual é adquirida plenamente só pela morte de nosso Senhor Jesus.

Demais, a mortificação de nossa carne aí nos é representada, e a lavagem, representada pela água lançada sobre a criança, é sinal e selo do sangue de nosso Senhor Jesus, que é a verdadeira purificação de nossas almas. A sua instituição nos é ensinada na Palavra de Deus, a qual os santos apóstolos observaram usando de água em nome do Pai, do Filho e do Santo Espírito.

Quanto aos exorcismos, renúncia a Satanás, crisma, saliva e sal, nós os registramos como tradições dos homens, contentando-nos só com a forma e instituição deixada por nosso Senhor Jesus.

X. Quanto ao livre-arbítrio, cremos que, se o primeiro homem, criado à imagem de Deus, teve liberdade e vontade, tanto para bem como para mal, só ele conheceu o que era o livre-arbítrio, estando em sua integridade. Ora, ele nem apenas guardou este dom de Deus, assim dele foi privado por seu pecado, e todos os que descendem dele, de sorte que nenhum da semente de Adão tem uma centelha do bem.

Por esta causa, diz São Paulo que o homem sensual não entende as coisas que são de Deus. E Oséias clama aos filhos de Israel: “Tua ruína vem de ti, ó Israel”.

Ora isto entendemos do homem que não é regenerado pelo Santo Espírito.

Quanto ao homem cristão, batizado no sangue de Jesus Cristo, o qual caminha em novidade de vida, nosso Senhor Jesus Cristo restitui nele o livre-arbítrio, e reforma a vontade para todas as boas obras, não todavia em perfeição, porque a execução de boa vontade não está em seu poder, mas vem de Deus, como amplamente este Santo Apóstolo declara, no sétimo capítulo aos Romanos, dizendo: “O querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo”.

O homem predestinado para a vida eterna, embora peque por fragilidade humana, todavia não pode cair em impenitência. A este propósito, São João diz que ele não vive pecando, porque a eleição permanece nele.

XI. Cremos que pertence só à Palavra de Deus perdoar os pecados, da qual, como diz Santo Ambrósio, o homem é apenas o ministro; portanto, se ele condena ou absolve, não é ele, mas a Palavra de Deus que ele anuncia.

Santo Agostinho neste lugar diz que não é pelo mérito dos homens que os pecados são perdoados, mas pela virtude do Santo Espírito. Porque o Senhor dissera a seus apóstolos: “Recebei o Santo Espírito”; depois acrescentara: “Se perdoardes a algum seus pecados”, etc.

Cipriano diz que o servidor não pode perdoar a ofensa contra o Senhor.

XII. Quanto à imposição das mãos, essa serviu em seu tempo, e não há necessidade de conservá-la agora, porque pela imposição das mãos não se pode dar o Santo Espírito, porquanto isto só a Deus pertence.

No tocante à ordem eclesiástica, cremos no que São Paulo dela escreveu na Primeira Epístola a Timóteo, e em outros lugares.

XIII. A separação entre o homem e a mulher legitimamente unidos por casamento não se pode fazer senão por causa de adultério, como nosso Senhor ensina em Mateus, capítulo dezenove, verso cinco. E não somente se pode fazer a separação por essa causa, mas ainda, bem examinada a causa perante o magistrado, a parte não culpada, não podendo se conter, pode casar-se, como Santo Ambrósio diz sobre o capítulo sete da Primeira Epístola aos Coríntios. O magistrado, todavia, deve nisso proceder com madureza de conselho.

XIV. São Paulo, ensinando que o bispo deve ser marido de uma só mulher, não diz que lhe seja lícito tornar-se a casar, mas o santo apóstolo condena a bigamia a que os homens daqueles tempos eram muito afeitos; todavia, nisso deixamos o julgamento aos mais versados nas Santas Escrituras, não se fundando a nossa fé sobre esse ponto.

XV. Não é licito consagrar a Deus, senão o que ele aprova. Ora, é assim que os votos monásticos só tendem à corrupção do verdadeiro serviço de Deus. É tambem grande temeridade e presunção do homem fazer votos além da medida de sua vocação, visto que a Santa Escritura nos ensina que a continência é um dom especial (Mateus quinze e a I Epístola de São Paulo aos Coríntios, sete). Portanto, segue-se que os que se impõem esta necessidade, renunciando ao matrimônio toda a sua vida, não podem ser desculpados de extrema temeridade e confiança excessiva e insolente em si mesmos.

E por este meio tentam a Deus, visto que o dom da continência é em alguns apenas temporal, e o que o teve por algum tempo não o terá pelo resto da vida. Por isso, pois, os monges, padres e outros tais que se obrigam e prometem viver em castidade, tentam contra Deus, por isso que não está neles cumprir o que prometem. São Cipriano, no capítulo onze, diz assim: “Se as virgens que se dedicam de boa vontade a Cristo perseverarem em castidade sem defeito, sendo assim fortes e constantes, podem esperar o galardão preparado para a sua virgindade; se não querem ou não podem perseverar nos votos, é melhor que se casem do que serem precipitadas no fogo da lascívia por seus prazeres e delícias”. Quanto à passagem do apóstolo São Paulo, é verdade que as viúvas, tomadas para servir à Igreja, se submetiam a não mais casar, enquanto estivessem sujeitas ao dito cargo, não que por isso se lhes reputasse ou atribuisse alguma santidade, mas porque não podiam bem desempenhar os seus deveres sendo casadas, e, querendo casar, renunciassem à vocação para que Deus as tinha chamado, contudo, que cumprissem as promessas feitas na Igreja, sem violar a promessa feita no batismo, na qual está contido este ponto: “Que cada um deve servir a Deus na vocação em que foi chamado”. As viúvas, pois, não faziam voto de continência, senão que o casamento não convinha ao ofício para que se apresentavam, e não tinham outra consideração que cumpri-lo. Não eram tão constrangidas que não lhes fosse antes permittido casar-se que abrasar-se e cair em alguma infâmia ou desonestidade.

Ademais, para evitar tal inconveniente, o apóstolo São Paulo, no capítulo citado, proíbe que sejam recebidas para fazer tais votos sem que tenham a idade de sessenta anos, que é uma idade comumente fora da incontinência. Acrescenta que os eleitos só devem ter sido casados uma vez, a fim de que, por essa forma, tenham já uma aprovação de continência.

XVI. Cremos que Jesus Cristo é o nosso único Mediador, Intercessor e Advogado, pelo qual temos acesso ao Pai, e que, justificados no seu sangue, seremos livres da morte, e por ele já reconciliados teremos plena vitória contra a morte.

Quanto aos santos falecidos, dizemos que desejam a nossa salvação e o cumprimento do Reino de Deus, e que o número dos eleitos se complete; todavia não nos devemos dirigir a eles como intercessores para obtermos alguma coisa, porque desobedeceríamos o mandamento de Deus. Quanto a nós, ainda vivos, enquanto estamos unidos como membros de um corpo, devemos orar uns pelos outros, como nos ensinam muitas passagens das Santas Escrituras.

XVII. Quanto aos mortos, São Paulo na 1 Epístola aos Tessalonicenses, quarto capítulo, nos proibe entristecer-nos por eles, porque isto convém aos pagãos, que não têm esperança alguma de ressuscitar. O apóstolo não manda e nem ensina orar por eles, o que não teria esquecido, se fosse conveniente. Santo Agostinho, sobre o Salmo quarenta e oito, diz que os espíritos dos mortos recebem conforme o que tiverem feito durante a vida; que, se nada fizeram, estando vivos, nada recebem, estando mortos.

Esta é a resposta que damos aos artigos por vós enviados, segundo a medida e porção da fé que Deus nos deu, suplicando que lhe praza fazer que em nós não seja morta, antes produza frutos dignos de seus filhos, e assim, fazendo-nos crescer e perseverar nela, lhe rendamos graças e louvores para sempre jamais. Assim seja.

Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André Lafon

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[1] O Símbolo referido é o Credo dos Apóstolos.

“E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor do SENHOR.” Isaías 11.2
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